ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de janeiro de 2011
Dom Orlando Brandes 
1. Adão é criado por Deus, feito de barro e sopro, terra e espírito. Deus é o oleiro do homem. Assim será a vida humana, unidade entre barro e espírito, corpo e alma, fraqueza e nobreza, argila e imagem de Deus. O humano e o divino se encontram em Adão. O paraíso é o equilíbrio entre o barro e o espírito, é a aceitação da criaturalidade e da espiritualidade.
2. Adão mora no jardim, no paraíso. Vive em comunhão consigo, com os outros, com o cosmos e com Deus. Seu relacionamento é completo e por isso vive uma vida feliz, realizada. Nós somos os nossos relacionamentos e crescemos na medida em que nos encontramos conosco e com os outros, com Deus e com a natureza. Adão gozava da amizade de Deus. A harmonia dos relacionamentos é o paraíso.
3. Adão dá o nome às coisas. Ele é administrador, é gerente, é representante de Deus. Adão não é com as coisas, ele é consciência e tem superioridade, cabe-lhe organizar o mundo, ser cocriador e colaborador de Deus. É uma criatura diferente das demais, porque é imagem e semelhança de Deus. Está mais ligado a Deus do que à terra. Adão é portador de uma abertura natural à transcendência, ao divino, à religiosidade. O homem é interlocutor de Deus e administrador da criação.
4. Adão vive em comunhão com a mulher. Nele homem e mulher são complementares, aliados, recíprocos, companheiros. São uma só carne. A dignidade do homem e da mulher está na expressão ''osso de meus ossos, carne de minha carne''. Adão e Eva vivem uma realização humana e sexual harmoniosa, fecunda e positiva. A nudez é símbolo desta harmoniosa convivência e respeitoso relacionamento.
5. Adão é livre e faz a experiência da culpa. Deixa-se levar pela tentação de ser deus, ser o centro, ser o maior, ser o juiz e senhor do bem e do mal. Eis a desobediência, a não aceitação de ser barro, de ser criatura. A culpa consiste em elevar-se à condição de senhor e criador. A harmonia é quebrada e frustrada, a ordem é rompida e a natureza humana é ferida e agora inclinada ao mal. Só com o Novo Adão, Jesus Cristo, é que inicia-se uma nova criação.
6. Adão faz a experiência do pecado. Agora ele tem medo de Deus e se esconde, culpa os outros, prejudica o cosmos, tem vergonha de si mesmo. Perdeu a amizade e o relacionamento com Deus. Adão foi criado bom, mas optou em sua liberdade pelo mal. Veio a desordem, a frustração, o pecado. Sem Deus o homem perde o rumo, perde a reta razão e constrói um humanismo desumano.
7. Adão faz a experiência do bem e do mal. De amigo tornou-se inimigo de Deus. Rompeu com a mulher e a culpou. Despreza a si mesmo e cai na baixa estima. Graça e pecado, bem e mal, verdade e mentira, felicidade e frustração, são experiências que condicionam toda a humanidade a partir de Adão. A harmonia original transformou-se em profunda divisão. Perdemos a unidade, a comunhão, a oportunidade.
8. Adão é símbolo de toda a humanidade. Todos nós fazemos a experiência adâmica. A história humana encontra em Adão o seu mistério, ou seja, ele retrata o drama da humanidade inteira, a luta entre a liberdade e a obediência, o bem e o mal, a realização e a frustração, a luz e as trevas. Em Cristo Jesus, no seu sangue, somos recriados, regenerados, recuperados, somos novas criaturas.
9. Adão é nosso irmão. Somos todos de barro. A fraqueza, as limitações, as feridas são parte da nossa comum criaturalidade. Viemos todos do barro, do limo, do pó. Somos irmão em Adão. Não há raça superior nem sangue azul, somos um em Adão. A experiência do mal atinge a todos e ao pó todos voltaremos. Nossa igualdade original e nossa comum dignidade precisa ser respeitada. Todos pecamos. A todos é oferecida a salvação no novo Adão, Cristo Jesus. No jardim das oliveiras Jesus nos remete ao jardim do Éden, ao paraíso que havíamos. Precisamos transformar desertos em jardins.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
-Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres (55 linhas) e no mínimo 1.600 caracteres (25 linhas).
Os artigos publicados não refletem necessariamente a opinião do jornal. E-mail: [email protected]


