ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Silvano Redon 
Uma breve caminhada pelo quadrilátero central de Londrina, projetado como um enorme tabuleiro de xadrez, revela uma cidade pouco conhecida para uns e quase esquecida para outros. A Lei Cidade Limpa, sancionada em 29 de junho de 2010, e que entra em vigor no dia 2 de fevereiro próximo, descortina a paisagem histórica e urbana de Londrina e nos surpreende com a vastidão de detalhes ocultos atrás das exageradas placas e totens publicitários que tomam conta (por pouco tempo) das fachadas das lojas e do patrimônio arquitetônico da cidade. Depois de perdermos o petit pavê do Calçadão e o seu traçado geométrico em preto e branco (desenho da tapeçaria kaingang), também os seus aconchegantes e acolhedores bancos de madeira e suas charmosas luminárias, o resgate e a descoberta da paisagem histórica de Londrina são muito bem-vindos. Mesmo que esta não tenha sido a única intenção da Lei 10.996/2010, que versa sobre a despoluição visual, a mudança traz ganhos inestimáveis à memória da jovem senhora de 76 anos e revela seus símbolos e sua história.
Por ser relativamente nova, acredita-se equivocadamente que a cidade não tenha o que preservar ou revelar. Andares inteiros de dezenas de prédios históricos, com seus balcões nos pavimentos superiores, podem agora ser contemplados. A cidade desconhecida se revela palmo a palmo a cada placa que é removida. A Rua Sergipe, juntamente com seu entorno, emblemática da história de Londrina, passagem obrigatória de moradores e de viajantes que vinham buscar novas possibilidades de vida e de trabalho na ''terra roxa'', mostra aos poucos o estilo da arquitetura Art Decó, que predominou na cidade na década de 1940, e os seus contornos geométricos. A platibanda que esconde os antigos telhados, bastante escurecidos pelo tempo, as molduras das janelas frontais e as fachadas retangulares com seus frisos, e que anunciavam uma cidade próspera, moderna e dinâmica, podem ser mais bem apreciadas, bem como os letreiros e as cores originais que se tornam visíveis.
Os prédios do quadrilátero central compõem o Patrimônio Histórico Cultural da cidade, situado na confluência da relação que as pessoas têm com o espaço, portanto, com o meio, e com o tempo, portanto, com a história. O Patrimônio Histórico Cultural é o que possibilita a emergência de um sentimento de pertença ao grupo e está na base da sua identidade, nos cerca e é vivenciado cotidianamente. Ele é o conjunto de todas as particularidades produzidas ao longo do tempo e se constitui, além dos costumes, das artes e das demais manifestações culturais, da paisagem urbana, dos traçados das ruas e das avenidas e do estilo das edificações de uma nação ou de uma cidade. Trata-se de referências simbólicas e afetivas, que mantêm viva a memória que se refaz por meio do sentimento de continuidade entre o passado e o presente, entre o tradicional e o moderno que se complementam e se entrelaçam. As edificações do quadrilátero central, que agora se deixam ver, revelam parte desse Patrimônio, as características e as particularidades próprias dos diferentes momentos pelos quais a cidade passou.
Essa é uma importante etapa para o conhecimento e o reconhecimento da história de Londrina, da sua descoberta e do seu resgate. Nenhum incentivo à preservação pode ter sucesso quando não se conhece aquilo que se almeja preservar. Apreciar e conhecer a cidade a céu aberto, é um passo de grande importância para o cuidado com o seu valioso, e ainda pouco conhecido, Patrimônio Histórico Cultural. As legislações acerca do tombamento, frequentemente discutidas, não garantem, por si só, a preservação. É preciso que haja o reconhecimento popular e a Lei Cidade Limpa vai ao encontro da legitimação, pela população, da riqueza histórico-cultural a ser preservada, pois deixa, à mostra a história da cidade contada por sua arquitetura e pela paisagem urbana que rasga o horizonte das suas ruas.
SILVANO REDON é servidor público e mestrando em Ciências Sociais em Londrina
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