Vez por outra parece que algum governante acometido por um arroubo qualquer e decide levar adiante alguns projetos que resultariam em algo importante e revolucionário ao país, mas que devido a mau planejamento, redundam em ignominiosos fracassos. Isso quando chegam a ser concluídos, comumente com anos de atraso e preço final invariavelmente maior que o previamente estabelecido.
Vamos a alguns exemplos. Há alguns anos o Brasil investiu milhões de dólares na criação do jato militar AMX, em conjunto com a Itália. A intenção era vender ao menos 800 unidades do caça para outros países. Vendemos apenas 8, todos para a Força Aérea Colombiana. Há também o caso do submarino nuclear brasileiro, em desenvolvimento há quase 20 anos, mas que até agora consumiu mais verbas com maquetes do que com a construção de sua estrutura em si. Outro caso: o tanque militar Osório levou tanto tempo para ser desenvolvido que quando passou a ser produzido em série, já era obsoleto.
Há ainda mais um exemplo, que é o mais retumbante e trágico fracasso tecnológico brasileiro: o foguete espacial VLS (sigla para Veículo Lançador de Satélites). Sua história é tão emblemática e rocambolesca que merece um parágrafo só para ela. O foguete começou a ser desenvolvido em 1985. Deveria ser concluído em 1990. Mas em 1993 ainda não estava pronto, de modo que o Brasil teve de lançar o satélite SCD-1 (que também foi construído com anos de atraso) somente após pagar para que uma empresa privada norte-americana o pusesse em órbita. O primeiro protótipo do VLS só ficou pronto em 1997 e, ao ser lançado, explodiu no ar, destruindo um satélite. O segundo foguete ficou pronto em 1999. Também explodiu no ar, destruindo outro satélite.
Chegou o ano de 2003 e o VLS, planejado para estrear em 1990, não havia realizado um único voo. Em 22 de agosto de 2003, o terceiro protótipo do foguete estava majestosamente colocado em sua plataforma de lançamento quando, subitamente, uma faísca em seu sistema elétrico ocasionou uma explosão.
Terminaram destruídos não apenas o foguete como também sua plataforma de lançamento, um satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e um da Universidade Norte do Paraná (Unopar), além das mortes de 21 dos maiores especialistas brasileiros em foguetes, pessoas cuja formação custara tempo e dinheiro, profissionais insubstituíveis em médio prazo.
É claro que a ciência e a engenharia brasileira estão de parabéns. Os profissionais destas áreas conseguem feitos grandiosos com recursos relativamente pequenos e, muitas vezes, sob críticas. O que falta é um bom planejamento e certamente o direcionamento de recursos sem esmorecimento. Quando o VLS matou 21 técnicos ao explodir, os recursos destinados à Agência Espacial Brasileira (AEB), que muitos brasileiros nem sabem que existe, eram cerca de 30 milhões de dólares anuais. Este valor é enorme na minha ou na sua conta bancária, mas é pouco para se construir foguetes que não explodam. Na época do acidente, o governo Lula prometeu aumentar as verbas da AEB a mais de 100 milhões de dólares. Chegou a cumprir, mas em 2009 as verbas já tinham voltado a cair a menos da metade deste valor.
Sem comprometimento, planejamento sério e direcionamento de recursos financeiros não há como falar em desenvolvimento. Fica, então, uma pergunta: será que, mais uma vez, não estamos caminhando para outro fracasso com a decisão de se construir o dispendioso e parcamente planejado trem-bala entre Rio de Janeiro e São Paulo?
JOSÉ SINÉSIO RODRIGUES é professor e coordenador da área de Astronáutica do Grupo de Estudo e Divulgação de Astronomia de Londrina

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