ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Aguinaldo Pavão 
A FOLHA DE LONDRINA publicou no último dia 3 a entrevista com com o presidente da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, Daniel Sottomaior - ''Acreditar em Deus faz diferença?'' (Opinião, pág. 3). Na entrevista, o líder dessa entidade defende a campanha publicitária em defesa da independência entre moralidade e religião. Se os crentes têm o direito de divulgarem em outdoors dizeres bíblicos sobre o céu, o inferno, a felicidade, o bem e o mal, por que os ateus não teriam também o direito de fazerem propaganda de suas convicções?
Ideias não precisam ser protegidas
Gostei de uma frase: ''Ideias não têm direitos e não precisam e não devem ser protegidas''. Estou absolutamente de acordo com esse ponto de vista. Ora, religiões são corpos doutrinários, isto é, são compostas basicamente de ideias acerca do universo, da vida, da morte, do bem e do mal.
Gostaria de reforçar a tese de que crença em Deus e a moralidade são coisas que podem perfeitamente ser pensadas de modo independente. Uma pessoa deve ser considerada moralmente melhor por acreditar em Deus? É digno de espanto ler declarações de líderes religiosos desqualificando moralmente pessoas que não professam qualquer fé em Deus. Como se os crentes em Deus merecessem, por isso apenas, algum louvor especial. Mas talvez não seja bem isso que padres e pastores pensam. Talvez eles pensem que a crença em Deus seja uma condição necessária, mas não suficiente, para a bondade moral. Entretanto, o fato é que crer em Deus não é nem uma condição necessária nem suficiente para ser bom. Posso acreditar em Deus e ser mau - algo que padres e pastores poderiam concordar. Todavia, também posso não acreditar em Deus e ser bom, algo que parece ser admitido com relutância ou simplesmente não ser admitido.
Um descrente pode ser entendido como alguém que comete um pecado intelectual, ou seja, ele erraria ao afirmar sua descrença em Deus. Esse erro diz respeito ao conhecimento do mundo, não se refere necessariamente ao conhecimento sobre o certo e o errado nas ações humanas.
Em outras palavras, não há mérito moral algum em acreditar em Deus. Talvez se possa conceder algum mérito intelectual, ou seja, se Deus existir a crença em Deus será verdadeira. Se admitirmos isso, uma campanha que queira nos convencer que pessoas ateias e agnósticas não são moralmente más parecerá ociosa. Talvez ela só tenha sentido se dirigida a um número, que suponho muito pequeno, de crentes (incluindo lamentavelmente líderes religiosos) que acalentam uma visão equivocada sobre a relação entre Deus e moralidade.
Para muitos, Deus e religião são coisas sagradas. Para outros, e eu me incluo nesse grupo, Deus e religião são meros produtos humanos e, como tais, não trazem consigo nada de sagrado que possa justificar a cobrança de atitudes de reverência.
É importante salientar que padres, pastores, bispos, arcebispos e lideranças religiosas em geral não pregam apenas para seus fiéis. Com efeito, se eles pensam que há algo que é objetivamente certo e errado em termos morais, então eles se dirigem a todos os seres humanos. Sendo assim, eles não podem se furtar à crítica e ao debate caso não queiram ser acusados de proselitismo dogmático. Está errada, pois, a opinião de que os ateus e agnósticos não têm razão para se incomodar com o que dizem os líderes religiosos.
AGUINALDO PAVÃO é professor de Filosofia na Universidade Estadual de Londrina
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