­Mais que um pro­fes­sor

Minha mãe lecionou para o professor Water Okano quando este era um menino da zona rural. A sua conhecida polidez já era notada desde então e seria sua principal característica por toda a vida.
O professor Water entendia que a formalidade e as boas maneiras eram elementos essenciais para um razoável relacionamento entre todos. Ele não admitia haver pessoas sem um mínimo de leveza e de boas intenções.
O excesso de informalidade proposta pela vida moderna era visto, por ele, como falta de respeito. Sofria calado por isso.
Durante sua estada conosco, tornou-se respeitado até por seus concorrentes profissionais.
Para ele, exercer o magistério era um todo e não uma parte como muitos educadores percebem a própria profissão hoje em dia.
Foram-se, com ele, uma das maiores reservas pedagógicas do meio educativo local e, também, um dos maiores exemplos de ética e honestidade que conheci em meu tempo de vida.
Saudades de um colega concorrente e, sobretudo, admirador.
VIRGÍLIO TOMASETTI JR. é professor em Londrina há 38 anos



Re­li­gião, es­pi­ri­tua­li­da­de, sen­so mo­ral




Co­mo te­nho es­cri­to, as re­li­giões de­sem­pe­nha­ram - e por al­gum tem­po ain­da de­sem­pe­nha­rão - a im­por­tan­te fun­ção de man­ter vi­va a cren­ça dos ­fiéis num ser su­pe­rior, ou boa par­te da hu­ma­ni­da­de po­de­ria ter se afun­da­do na de­ses­pe­ran­ça an­te as agru­ras do mun­do. Mas ago­ra é che­ga­do o tem­po da tran­si­ção da re­li­gio­si­da­de pa­ra a es­pi­ri­tua­li­da­de, ou se­ja, a res­sur­rei­ção, que se tra­duz por des­per­tar das cons­ciên­cias.
Es­pi­ri­tua­li­da­de não é in­te­lec­tua­li­zar-se so­bre coi­sas trans­cen­den­tes mas ca­da um en­ten­der-se co­mo for­ma per­fei­ta da Cria­ção. A vi­vên­cia tem­po­rá­ria na fi­si­ca­li­da­de ter­re­na não re­ti­ra de nós es­se atri­bu­to. Es­pi­ri­tua­li­da­de é sa­ber que te­mos di­men­são uni­ver­sal, e - nes­ta nos­sa exis­tên­cia ­atual - ter a com­preen­são de que so­mos to­dos ­iguais e que de­ve­mos nos res­pei­tar mu­tua­men­te; e é tam­bém as­su­mir a cons­ciên­cia da igual­da­de en­tre to­dos e da re­ci­pro­ci­da­de.
Re­li­giões têm se fun­da­do na di­fu­são do me­do - e is­to até cer­to pon­to te­ve a sua efi­cá­cia e a ra­zão de ser -, mas ago­ra é che­ga­do o tem­po de um rea­li­nha­men­to e de ex­pan­são do ní­vel de en­ten­di­men­to; e so­bre­tu­do da ele­va­ção do sen­so mo­ral que em sua ple­na di­men­são agre­ga to­das as vir­tu­des. Mes­mo com equí­vo­cos e omis­sões, as re­li­giões têm ser­vi­do co­mo apren­di­za­do pa­ra os ­seus se­gui­do­res e co­mo for­ma de pre­ser­var ne­les a cren­ça nos mis­té­rios do trans­cen­den­te. Mas ago­ra co­me­çam a ser aber­tos os ca­nais pa­ra di­men­sões que vão ­além de­las.
O ser es­pi­ri­tual es­tá den­tro de nós e de­ve­mos bus­cá-lo. Se hou­ver cons­cien­te li­vre em ca­da um, não há pre­juí­zo em man­ter-se nu­ma re­li­gião e ex­trair de­la o que tem de bom, mas exis­tem es­tra­das no­vas a per­cor­rer, mui­tos ata­lhos e tri­lhas des­co­nhe­ci­das que pro­por­cio­na­rão gran­de re­go­zi­jo pa­ra a al­ma. E quan­do che­ga­mos a es­se pa­ta­mar não ­mais re­gre­di­mos. Bus­car em ou­tros cam­pos o que se des­co­nhe­ce não é uma he­re­sia fa­ce a dog­mas que te­mos se­gui­do, mas a adi­ção de luz so­bre os pon­tos obs­cu­ros, e ­eles são mui­tos.

WAL­MOR MA­CA­RI­NI é jor­na­lis­ta em Lon­dri­na

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