So­mos to­dos mi­no­rias

Abra o jornal ou navegue pela internet e, em pouco tempo, você irá se deparar com vários casos de preconceito que o deixarão atônito: homossexuais espancados por delinquentes homofóbicos, afrodescendentes maltratados e diminuídos em virtude da cor da pele, adeptos de determinadas religiões perseguidos e assassinados por fundamentalistas que professam outro credo. É fácil revoltar-se com situações assim. Contudo, acabamos por não perceber um preconceito gritante que se infiltrou em grande parte da sociedade brasileira. Esta visão discriminatória está em frases como a do arcebispo de Londrina, Dom Orlando Brandes, no artigo ''Parceiros inseparáveis'' (Espaço Aberto, 31/12): ''Com Deus somos um abismo de possibilidades magníficas, mas sem Deus podemos ser uma ameaça terrível''.
Uma pena que alguém que deveria pregar o amor e a paz o faça de forma manca, apoiada em preconceitos. A moral das pessoas não pode ser medida por sua religiosidade. Há ateus ''maus''? Com certeza! Mas há homossexuais, negros, deficientes físicos maus. E não o são por serem homossexuais, negros ou deficientes físicos. Do mesmo modo que há evangélicos, católicos, judeus, muçulmanos e integrantes de qualquer religião maus. Mas também há os ''bons'' em todas estas categorias. O que não podemos permitir é a insinuação de que membros de uma determinada minoria sejam vistos como pessoas aleijadas em sua moral, tão-somente por pensarem (ou serem) diferentes do que o autor julga ''normal''. Afinal, já dizia Caetano Veloso: ''De perto ninguém é normal''.
As pessoas que não professam a mesma fé da ''maioria'' são igualmente dignas e merecedoras de respeito, concordemos ou não com suas opiniões. Até mesmo porque somos todos membros de alguma minoria, seja ela relacionada à crença, raça, opção sexual, gosto musical ou qualquer outra característica que nos diferencie dos demais.
MIGUEL FERNANDO MORENO é advogado e empresário em Londrina

Nos ­maus po­lí­ti­cos nos­sa por­ção má

É um desgaste desnecessário consumirmos energia com nosso ódio pelos maus políticos. Temos de combatê-los, mas não nos mortificarmos por isso. Porque o ódio - por eles e por qualquer pessoa - nos corrói. Ademais, devemos saber que os maus e os (poucos) bons políticos são produtos do meio social, portanto, feitos à nossa imagem e semelhança. Porque todos nós temos os vícios e as virtudes daqueles que nos governam, dos que fazem as leis e dos que não as cumprem. Inútil pensar em governantes melhores se a sociedade não se melhorar primeiro. Se é verdade que a ocasião faz o ladrão, porque desperta os instintos já predispostos, e que as más companhias induzem ao roubo e à delinquência os já propensos, é desde pequeno que se forma o cidadão.
Então, salvo pouquíssimas exceções, uma boa pessoa - e por extensão um bom político - começa a plasmar-se na família, na escola e na igreja, que são os três pilares de formação do indivíduo. Agora que novos governantes assumem, é bom saber que não serão eles que farão o Brasil melhor, mas cada um de nós e todos juntos. A sociedade é que faz o governante e não este que a forma. É mais difícil mudar as coisas se não nos mudarmos. Quando o conjunto social se tornar mais honesto e responsável, dali emergirão governantes do mesmo naipe, e se algum deles se desviar, com certeza se asfixiará.
Cada um de nós tem a porção do bem e do mal, porque somos humanos, embora alguns sejam humanos demais... Aí culpamos Tiririca e o sistema que permitiu sua candidatura e não o povo que o elegeu. Não podemos abandonar a luta pela moralidade pública, mas temos de começar por nós próprios. Cada um carrega dentro de si todas as virtudes, que são os atributos da essência primordial, mas temos permitido que predomine o poder da personalidade, também muito presente, por isso, somos iguais aos políticos e os políticos são iguais a nós.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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