ESPAÇO ABERTO
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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Dom Orlando Brandes 
Deus se humanizou e o ser humano foi divinizado. Deus e o homem são aliados, amigos, parceiros. O homem está no centro do coração de Deus. Tem sede, fome, desejo e saudade Dele que é a raiz do nosso ser. Senhor, vossas mãos nos modelaram, sois nosso oleiro, nosso fôlego, nosso tudo. Em Ti somos, nos movemos e existimos (cf Atos 17,28). Na verdade, sem Ti, somos atrofiados e construímos um humanismo desumano. Quando Tu morres para nós, elegemos ídolos no teu lugar. Precisamos de Ti como o peixe precisa da água.
Somos peregrinos do absoluto e Deus dá o primeiro passo em nossa direção ainda mais, Ele está em ato nas nossas ações. ''A história humana é arena de Deus'' (P. Messias). Ele potencia a cada criatura. Somos aceitos por Ele mesmo naquilo que somos inaceitáveis. Cada instante de nossa existência é sustentado por seu amor. O homem e Deus estão um no coração do outro. Quanto mais estamos em Deus mais humanos somos. ''Deus está mais perto de nós que o nosso jugular (Corão), mais, Ele também ''está nas panelas'' (Santa Tereza), ou ainda, ''está mais em nós que nossa própria alma'' (Santo Tomás). A glória de Deus é o ser humano vivente, dizia Santo Irineu.
Deus é o antimal e amigo da vida (cf Sb 11,26). Nossas limitações não nos fazem maus diante de Deus, mas objetos de sua preocupação amorosa. A Ele não interessa a sua honra, mas, a nossa felicidade. Ele se realiza em nossas realizações, somos seus concriadores, colaboradores, embaixadores. Com Deus somos um abismo de possibilidades magníficas, mas sem Deus podemos ser uma ameaça terrível. Não somos fruto do acaso nem do cálculo, somos um milagre do amor de Deus. ''Sou alguém desejado, pensado, projetado, querido, criado e amado por Deus'' (J. Moltmann).
Deus nos livra da realidade falsificada, dos caminhos equivocados, das receitas destrutivas e dos afetos desordenados. São grandes nossas feridas, porém, maior é a farmácia de Deus, mesmo que seus remédios sejam amargos. Ele nos tira do lixo, dos abismos, da lama, das trevas e do pó. É exuberante sua bondade e exagerada sua misericórdia. Ele nunca se envergonha nem se decepciona conosco, mas, com paciência, nos espera. Diante dele nem a culpa nem a dor permanecem de pé.
Em Deus respiramos, por Ele suspiramos, Dele transpiramos, e Nele nos inspiramos. Ele está em nós, perto de nós, dentro de nós, acima de nós. Na origem de tudo está o seu amor. Nós o experimentamos ora como sarça ardente, ora como brisa mansa. Ele é inefável, imprevisível, surpreendente porque a Ele nada é impossível, ama com amor incondicional e sempre se inclina para soerguer, curar, recuperar e recriar a todos.
Deus nos inspira a ideias corretas, a verdade que liberta, a estrada certa, a ordem dos afetos, o mundo autêntico. Encanta-nos a lógica divina que consiste em amar os humildes, defender os pobres, perdoar sem se cansar e tirar o bem do mal. Pior que não crer em Deus, é pensar mal Dele. Como é bom saber que Ele conta com o nosso nada, nossas limitações, nossa indignidade. Ele não exige êxitos, mas quer nossa doação. Ele sabe transformar fracassos em sucessos, lágrimas em exultação de alegria. Ele liberta da náusea, do vazio, do desespero e das ilusões. Deus é uma atração irresistível.
Nossos caminhos são marcados pela divina providência. Tu Senhor ouves os humildes, acolhe-nos como somos e assim nos tornamos melhores. Confias em nós, mesmo quando, merecemos tua desconfiança. Não permitas que tenhamos a presunção de não confiar em Ti. Da lama fazes nascer flores e nossos trajes de luto se transformam em vestes de festa. Tu nunca te cansas de nos amar. Somos preciosos aos teus olhos e sabes refazer os vasos quebrados. É impossível não crer em Ti. Basta Senhor de tanto amor.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


