No front de qualquer batalha sempre quem assume a figura humana do escudo vivo são os subordinados. Em outras situações da vida também isso ocorre com muita intensidade. Muito mais do imaginamos. Quando procuramos uma repartição pública e demoramos em ser atendidos, normalmente quem escuta os lamentos são os servidores do guichê. Eles não são culpados de toda morosidade que acontece nas diferentes prestações de serviços à comunidade. Nas filas dos bancos também ocorrem uma demora cansativa, originando insatisfação e mau humor. Ninguém gosta da demora em ver seu problema resolvido. Nos hospitais, então, pobre do recepcionista que, não tendo a autonomia para resolver a ansiedade dos pacientes, recebe uma carga de lamentos e reclamações que desafiam a paciência humana. Tudo isso porque a dor e a preocupação do doente são mais importantes que a estrutura burocrática do atendimento, mesmo que emergencial.
Talvez até haja um pouco de egoísmo em quem reclama de tudo isso, mas seria mais salutar que a população entendesse que aquele servidor na frente daquela batalha é somente um ser humano cumprindo ordens, seja no setor público ou na iniciativa privada. Calma e equilíbrio precisam ser exercitados sempre, inclusive nos inconsequentes bate-bocas por telefone. É como no trânsito: só ocorre briga porque os dois motoristas querem confronto.
Na iminência do novo governo no Paraná, seria muito apropriado que toda população pudesse saber quem são os verdadeiros generais das praças de pedágio. Quem são os comandantes? Os donos? Os que se beneficiam das propriedades particulares construídas com imponentes barreiras de concreto em rodovias públicas? Todos os anos temos aumento com dito amparo legal, mas quem sofre as desavenças e até graves ofensas pessoais são os ''soldados rasos'', aqueles que trabalham nos boxes recebendo as tarifas. Essa comunidade que simplesmente trabalha, não deve mais ser crucificada como sendo ela a dona da situação e a mentora intelectual dos fatos.
Está na hora da imprensa autônoma do Paraná trazer à tona quem são os verdadeiros donos das praças de pedágio, seus nomes físicos e/ou jurídicos. Se o contrato foi bem elaborado ou não, não adianta mais chorar. O embate jurídico já foi várias vezes estimulado e não houve qualquer sinal de anulação contratual ou medida que pudesse garantir a vontade popular consolidada com preços reduzidos.
No serviço público algumas situações se amenizaram com a efetiva criação e ação das ouvidorias. E no setor privado? Tem ouvidoria nas praças de pedágio? Obviamente esta talvez seja uma estatística que não interessa aos generais. Se demonstrarem interesse em implantá-las será somente mais uma fachada da enganação. Ouvir, muitas vezes, pode significar não resolver, mas mantém acessa a chama da esperança de quem falou e desabafou. Contudo, a força popular é coesa e faz a diferença. É preciso sim saber quem se locupleta com as altas taxas cobradas. E a receita federal? Monitora e fiscaliza com assiduidade o incremento de patrimônio dos generais? Todos paranaenses precisam continuar exercendo o dever da transparência na prestação de contas das arrecadações. Alguém já viu um balancete das praças de pedágio? Assim, o povo do Paraná vai formando uma nova linha de pensamento e isentando os trabalhadores da linha de frente que representam a ponta mais fraca da corda.
Enquanto se luta para promover a perspectiva de baixar os preços, vai-se cozinhando a esperança de todos. Tivemos até governador que conseguiu com bravatas e mentiras se eleger senador. O mais grave, todavia, é que o aumento ocorre justamente em 1º de dezembro de cada ano, para que o gasto previsto pelas viagens de fim de ano e férias escolares seja diluído pela ilusão no recebimento do décimo-terceiro salário. Indução psicológica inteligente de quem criou esse infindável sistema de arrecadação, com reajustes natalinos.
WILMAR MARÇAL é professor universitário em Londrina

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