A questão das revelações do WikiLeaks, principalmente sobre o governo dos Estados Unidos, tem suscitado muitos debates, inclusive na matéria ''Deve a imprensa divulgar segredos de Justiça?'' (Opinião, pág. 3, 10/12) que trata da divulgação do livro ''A decisão judicial e a influência da mídia''. Nela foi colocado como conflito de direitos a revelação de provas inseridas em investigação ou ação penal, obtidas a partir de quebra dos sigilos, da anulação da prova revelada pela mídia e chamada da população ao debate.
As revelações do Wikileaks demonstram que, infelizmente, a sociedade construída há séculos está incomodada porque não tem como fundamento basilar a verdade e a honra, mas a mentira e a hipocrisia, em contraponto aos valores que Jesus ensinou, como ''eu sou o caminho, a verdade e a vida'', dos quais muitos contemplam e veneram semanalmente em templos aos domingos, mas a prática nos demais dias é outra.
É triste que os Estados Unidos, fundadores da ONU após a 2 Guerra Mundial, monitorem seus membros de forma sorrateira e mentirosa, tendo como embuste a busca da paz social. Não haverá paz por meio da mentira e da hipocrisia, bem como o fim da injustiça por elas causada, muito menos quando a lei dos homens protege quem delas vive.
No decorrer do tempo, causam crises sociais como guerras, guerrilhas e terrorismo, fazendo com que o interesse público clame por justiça e assim, estes direitos e liberdades individuais de sigilo, mentira e hipocrisia sejam colocados de lado para o fim da justiça que é a paz pela busca da verdade real sobre as liberdades individuais, inclusive o fim das anulações das provas publicadas pela mídia. Assim, em tese, o que há não é conflito de direitos, mas sim de interesses!
Exemplo recente está nos Estados Unidos após 11 de setembro de 2001 quando tais direitos e liberdades individuais, inclusive a 5 emenda, foram colocados de lado, paraísos fiscais instituídos pela máfia e outros interesses, inclusive do tráfico de drogas, também passaram a ser monitorados, há cidadãos presos em Guantánamo sem direitos básicos, outros deportados sem direito de defesa e sem o livre direito de manifestação de pensamento, etc. Outro exemplo é a operação mãos limpas na Itália que só ocorreu após nosso atual hóspede Cesare Batisti e outros, como as Brigadas Vermelhas, darem início a assassinatos, inclusive de personagens ilustres como o então presidente Aldo Moro.
A Filosofia do Direito ensina que todo cidadão tem sim o máximo de direitos e liberdades individuais, oponível a todos. No entanto, o exercício deles jamais pode sobrepor o mínimo interesse público necessário, no caso, a verdade real e a paz social, pois senão não teremos mais uma sociedade justa e solidária. A consequência são os focos de violência já eclodem no Rio de Janeiro e São Paulo. Será que no Brasil será necessário ocorrer algo semelhante ao ocorrido na Itália ou nos EUA para que a verdade e a justiça prevaleçam no interesse pela paz? Não é possível que mais inocentes tenham de pagar pela ignomínia de poucos!
O que o WikiLeaks está fazendo com tanta coragem parece o ato de Jesus quando ''denunciou as mazelas do templo'' e, a partir dali, foi levado por interesse dos denunciados por ele para a cruz no Monte Calvário sob falsas acusações. É o que toda a mídia e cidadãos cristãos deveriam estar fazendo, pois aí não haveria como perseguir a maioria e o interesse público estaria demonstrado. O Papa João Paulo II, tempos atrás vaticinou: ''Onde não existe a verdade, a liberdade perde a razão''.
Só se justificam as liberdades e garantias individuais do cidadão, oponível ao interesse público, para aqueles que vivem em verdade e não ameaçam o mínimo de interesse público, a justiça e, por consequência, a paz social, objeto de toda história da evolução da espécie humana.
GERSON MACHADO é servidor público federal em Londrina

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