ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Maria Aparecida Vivan de Carvalho 
Mais uma vez fomos surpreendidos com o escandaloso caso do exorbitante aumento salarial dos nossos políticos, desencadeado num efeito cascata, por ação do Congresso Nacional. Segundo a opinião de alguns desses ''cuidadores'' do País, esse aumento trata-se tão somente de uma equiparação salarial, uma questão de isonomia em relação ao que ganham os ministros do Supremo Tribunal Federal. Outros afirmam que os penduricalhos que recebem não são correspondentes a uma renda digna pelo trabalho que executam.
Temos sido atropelados, ao longo dos últimos anos, com informações sobre desvios de recursos, megalômanos e absurdos, em detrimento do cumprimento do estabelecido em leis sobre a aplicação desses recursos em benefício da população, seja em saúde, saneamento, educação. Que o digam os episódios envolvendo cuecas e meias, outrora meros acessórios de vestimenta, transformados em burlas guiadas por insaciável apetite pelo dinheiro alheio. Seria ilusório pensar que uma melhor remuneração está diretamente associada a uma abrupta redução da corrupção.
Não se deve esquecer que uma arma certeira contra esse panorama de corrupção é a educação. Não obstante planos, programas, bolsas, exames e outros artifícios, os índices educacionais têm mostrado que as políticas não têm sido suficientes para tirar nosso país de classificações vergonhosas em termos de analfabetismo e avaliações em geral. A repetência e o abandono caracterizam um elevado patamar de evasão em todos os níveis de ensino, cabendo-nos reconhecer e nos indignar com o fato de milhões de crianças e jovens estarem fora da escola e da universidade.
Também são milhões os que ainda vivem nas fronteiras da pobreza e da marginalização. Essas perspectivas por si só trazem frustração a nós educadores, não somente pela asfixia abrangente de aquisição de conhecimento, mas pela impossibilidade de grande parte da população construir uma identidade própria que permita a interpretação real do mundo e que garanta uma visão de futuro e de uma vida digna. O descompromisso com a educação está deixando marcas profundas na sociedade, evidenciado pela pequenez de investimentos e por maquiagens que expõem a penúria em que se encontram as escolas.
Não se vislumbra ainda incentivo oportuno à adesão de jovens na carreira de professor, a despeito de tantas lutas e conquistas obtidas por esses profissionais, muitas vezes, em doses acanhadas frente à desmedida desvalorização do magistério. Não é mera coincidência que a vida na escola tem piorado e sucumbe à cultura da violência. O desestímulo de alunos e professores, concomitante com o aumento no consumo de bebidas e drogas, bem como a perda de valores de respeito e ética, permitem extrapolar para a sala de aula toda a insensibilidade e insensatez das ruas. Dar ao problema um tratamento paliativo é corroborar para a manutenção de um círculo vicioso de violência.
Outra questão estrutural são os descasos com os salários dos professores, esvaziados de reajustes e colocados na mira dos governos. Não há dúvida que os profissionais da educação devem amargar mais um final de ano engrossando as fileiras dos que aguardam esperançosos por um salário justo e melhor. Precisamos revalidar continuamente a articulação com o Poder Judiciário para que o combate à morosidade seja intensificado com vigor e penalidades austeras sejam imputadas aos detentores de poder que não cumprem com suas responsabilidades. Para a tão ansiada quanto merecida valorização do professor e da educação o alento vem do fortalecimento de sentimentos de coletividade e da participação em debates sérios sobre políticas públicas para, quem sabe, mudar de vez o rumo da educação deste país.
MARIA APARECIDA VIVAN DE CARVALHO é professora na Universidade Estadual de Londrina


