A última potência do planeta vive um processo de acentuado declínio. Os Estados Unidos, que festejaram o fim da URSS e a queda do Muro de Berlim como o triunfo do liberalismo, revelam a mais absoluta incompetência no sentido de exercer um papel de liderança pacificadora do mundo contemporâneo.
De um lado o aspecto mais superficial da publicização de despachos diplomáticos pelo Wikileaks é de fato espantoso. O que assusta não é revelação de documentos ''secretos'' e, muito menos, as situações embaraçosas que têm provocado entre os aliados dos EUA e nas relações diplomáticas internacionais. É fato notório a arrogância dos EUA na política internacional. Mas o espanto provém de outro aspecto que até o momento a imprensa ainda não tocou: trata-se da superficialidade das observações dos diplomatas estadunidenses sobre regimes, governos, políticos de todos os lugares do mundo. Superficialidade irresponsável.
Estaríamos mais bem preparados para tramas, conspirações, articulações e manipulações mais ou menos inerentes ao trabalho do ''corpo diplomático'' do Tio Sam. Mas os documentos até agora publicados revelam apenas uma porção de bobagens e observações mais ou menos estúpidas. A conclusão disto é que talvez o célebre cineasta Stanley Kubrick, tenha razão, quando no filme ''Dr. Fantástico'' faz o embaixador soviético afirmar que a URSS descobriu que os EUA fabricavam uma arma do juízo final pelo New York Times. Ou seja, se quisermos uma boa referência sobre relações internacionais temos dois caminhos: a produção dos especialistas da área e a dos bons articulistas da imprensa mundial.
Explicam-se assim, ao menos em parte, os desastrosos resultados da política estadunidense em várias partes do globo. E se a coisa vai mal com os democratas na Casa Branca, com os republicanos não seria melhor. Exemplo disto está na matéria de Bernhard Zand - ''Diplomatas foram enganados por modos 'cordiais' de Saddam na Guerra do Golfo'', publicada no ''Der Spiegel'' e traduzida na internet no dia 7 do corrente, sobre a irrealidade das mensagens da embaixadora estadunidense no Iraque de Saddan Husseim poucos dias antes da invasão do Kuait. Ela não fazia a mínima ideia do que se passava.
Ao cabo, fica comprovado documentalmente, que longe de estarem preparados para fornecer qualquer informação útil, estes ''diplomatas'' (aliás, chamá-los de diplomatas é quase uma ofensa quando pensamos na tradição, no preparo e na qualidade do nosso Itamaraty), se fiam em conversas ''de boteco'' e em meia dúzia de palavras gentis, trocando em miúdos, em fofoca e adulação, como sendo ''fontes fidedignas e reais'' para orientar a avaliação da política externa dos EUA.
Este embaraço deve se traduzir numa preocupação real: é com base nestas observações absolutamente anódinas e rasas que se tomam decisões de Estado. Se a resposta a esta questão for positiva, podemos começar a perder o sono, pois a liderança dos EUA no mundo é similar a de um rato que tentasse pilotar a Enterprise, a famosa nave do seriado Star Trek. O problema é que o ''rato'' no caso em questão possui o maior arsenal nuclear do planeta.
JOSÉ MIGUEL ARIAS NETO é doutor em História Social pela USP e professor de História Contemporânea na Universidade Estadual de Londrina

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