Jesus Cristo é o rei das nações e seu reino é de justiça, verdade, liberdade, alegria, amor, e paz Ele sacia nossas quatro fomes Ele é rei ontem, hoje e sempre porque é o bem supremo, o caminho, a verdade, a vida
1 Nossa primeira fome: de pão Num país continental, rico em safra de grãos, exportador de tantas riquezas, como o Brasil, tanta gente passa fome Uns dizem que só passa fome quem é preguiçoso Não podemos concordar com este pensamento Diz Josué de Castro no famoso livro ''Geografia da Fome'' que a ''fome é um problema político'' Eis a grande verdade Acrescentaria, a ''fome é um problema ético'' Para os cristãos a ''fome é um problema de fé e vida''
Deus fez chover o Maná no deserto Jesus multiplica os pães e diz aos apóstolos, ''dai-lhes vós mesmos de comer'' (Mc 6,37) Maria, Mãe de Jesus, reza: ''Os famintos serão saciados'' (Lc 1,53) Percebemos que Deus não cuida só da nossa alma, mas também do nosso estômago Em nome da fé precisamos colaborar com todas as entidades sociais solidárias para erradicar a fome que é um pecado social
2 Nossa segunda fome: de afeto Em seu livro ''Carícia Essencial'' o psicólogo Roberto Shinyashiki afirma que toda pessoa merece ser: respeitada, valorizada, compreendida, amada A ternura, o toque, o carinho, o colo, o elogio tem poder terapêutico Fomos programados para sermos amados Sem amor a gente se desequilibra, adoece, enlouquece e morre A rejeição é um perigo existencial Sem afeto a pessoa se torna doentia e perigosa É proibido economizar afeto, elogio, carinho Só quem é amado modifica e cresce Um sorriso, um elogio, um olhar, um abraço, um aperto de mão podem fazer milagres A amizade com Jesus sacia nossa fome de amor
3 Nossa terceira fome é: o bem É a chamada ''fome ética'', ou seja, fome da verdade, da justiça, da liberdade, do bem Estamos enfastiados de tanta corrupção, mentira e manipulação que fazem do Brasil o ''paraíso das mentiras'' (H Lepargneur) Jesus passou fazendo o bem Vivemos num mundo rico em técnica e pobre em ética Com velocidade supersônica galgamos as alturas da informática e com velocidade de tartaruga nos arrastamos pesadamente no crescimento humanístico, ético e espiritual Somos gigantes em técnica, nanicos em ética
Mas, como o ''homem é um ser de esperança'' (G Marcel), também nós queremos construir a ''civilização do amor, a política da solidariedade e a cultura da vida'' Esta é a revolução ética que almejamos
4 Nossa quarta fome: de Deus Até o socialista ateu como E Bloch reconhece que o homem é um ''ser de transcendência'' Desejos, dúvidas, inquietudes, indigências, perguntas, fazem do homem um ''adorador natural à procura de Deus''
Quando afirmamos que temos fome de Deus, queremos antes de tudo respeitar a dimensão religiosa da pessoa humana Ter fome de Deus é proclamar que os horizontes da vida e da história são mais amplos que os da ciência e da técnica Escrevia Pascal ''o último passo da razão é reconhecer que existe uma infinitude de coisas que nos superam'' Portanto, o homem se torna ateu quando se acha melhor do que Deus, conclui Pascal
Hoje, no lugar do Deus vivo, adoramos os ídolos do ter, do poder e do prazer desordenado cujas catedrais são os bancos, os shoppings e os motéis Deus foi desalojado, exilado, despejado Mas, eis a surpresa, o misticismo está de volta, o retorno da religião é indiscutível e a fome de Deus continua nos atormentar Sem Deus resta-nos o ruído metálico da violência, o silêncio da desconfiança e o vazio da volúpia O homem na verdade é um ''mendigo de Deus'' A ciência faz o homem mais inteligente, mas não o melhora (Hegel) e ele continua sendo uma ''Cloaca de incertezas'' (Pascal), juiz de tudo e imbecil O princípio da sabedoria é adorar a Deus, pois Ele carrega conosco o fardo da história
DOM ORLANDO BRANDES arcebispo de Londrina

mockup