ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Elaine Mateus 
O filósofo Heráclito imortalizou o pensamento de que ''ninguém se banha duas vezes nas mesmas águas de um rio'', e que serve agora à discussão sobre a alternativa apresentada pelo MEC para solucionar problemas na realização da prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) O Enem foi desenvolvido, no final da década de 90, como instrumento para auxiliar no diagnóstico do desempenho dos alunos e para fornecer dados que permitissem melhor orientar as políticas educacionais no Brasil
Em 2009, o MEC transformou a natureza diagnóstico-formativa do Enem em classificatório-seletiva, promovendo-o como forma de processo unificado de ingresso às instituições públicas e particulares de ensino superior Os desdobramentos da história temos vivenciado nos dois últimos anos Aquilo que aparece de forma simplificada e fácil no discurso dos responsáveis pelo Enem é, verdadeiramente, um processo complexo que requer mais do que vontade política para se concretizar como viável
Isso não significa dizer que o Enem deve deixar de ser considerado como alternativa A proposta pedagógica e sua matriz de referência decorrem de estudos importantes na área da educação e acumulam conhecimentos que não podem ser desprezados No entanto, a transformação do Enem em vestibular unificado pinçou das experiências norte-americanas, como o Scholastic Assessement Test e o American College Testing, pouco mais do que a ideia de ter no Brasil um teste padronizado para ingresso ao ensino superior Muitas universidades brasileiras detêm conhecimento técnico, recursos humanos e potencial tecnológico suficientes para realizar processos seletivos Apesar disso, o Enem se orienta a partir de uma política centralizadora e expõe as fragilidades de processos assim delineados Desta vez, além da suspeita de vazamento do tema da redação, surgem problemas com a impressão das provas e dos gabaritos
O governo federal busca alternativas para equacionar os danos já causados a milhares de jovens que depositaram no Enem as expectativas de cursar uma universidade A proposta de realizar outra prova para aqueles que se sentiram prejudicados fundamenta-se no argumento de que o Inep tem mecanismos para preparar um novo instrumento capaz da mesma medida, ou seja, de igual dificuldade e com questões balanceadas de modo similar às anteriores De fato, a Teoria da Resposta ao Item - modelagem estatística utilizada em testes psicométricos e na qual o MEC aposta suas fichas - oferece, em tese, a possibilidade de se compararem itens diferentes, de populações diferentes, em momentos diferentes Em tese
Na prática, a realização de nova prova deve ser entendida como um novo processo em que nem o instrumento, nem os candidatos serão os mesmos Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio porque as águas fluem e porque, igualmente, nós fluímos Ainda que se possa desejar garantir isonomia em processos realizados com instrumentos diferentes, em dias diferentes, isso não é mais do que suposição É fundamental considerar que os jovens indicados para refazer a prova estarão em outros momentos de suas vidas, vivendo sob novas pressões sociais; alguns poderão já estar aprovados em outros vestibulares e, assim, em maior conforto emocional
Fato é que não há solução capaz de resolver satisfatoriamente o imbróglio em que estão colocados os mais de 4 milhões de candidatos Qualquer que seja o caminho apontado perdemos todos: perderam os jovens e seus familiares, perderam as universidades que abandonaram seus processos em favor do Enem, perdeu a sociedade brasileira Se, por um lado, o MEC demonstra empenho em não alterar o curso do rio, por outro, não se pode ignorar o fato de que deveria, antes, ter contido a enxurrada
ELAINE MATEUS é professora do departamento de Letras Estrangeiras Modernas
Universidade Estadual de Londrina


