No livro ‘‘O monge e o executivo’’ há uma definição interessante sobre insanidade. É dito que insanidade é ‘‘fazer sempre as mesmas coisas e aguardar resultados diferentes’’. Eis aí, em poucas palavras, o que ocorre na área de segurança pública. Vamos nos antecipar. O governante sempre assume dizendo que vai investir em ‘‘inteligência’’ e combater a corrupção. Somos uma sociedade constituída de pessoas dotadas de enorme preguiça de exercitar o pensamento crítico. Prova disso é que alguns prefeitos em pleno século XXI ainda desfilam nas cidades dirigindo viaturas com sirenes ligadas, anunciando a ‘‘doação’’ do governo. Até parece que a viatura será capaz de realizar investigações.
  Outra prova da incapacidade mental de nossos gestores é chamar celular e notebook de avançada tecnologia, e ainda alegar que o efetivo policial pode ser reduzido em virtude da aquisição destes equipamentos ‘‘modernos’’. A segurança pública de fato está um caos. Não há como negar esta triste realidade que é ainda exacerbada com os programas policiais dos ‘‘teleneuróticos’’.
  No Rio de Janeiro, policiais mal treinados quase mataram uma família inteira em uma ação policial desastrada. Os agentes, que tiveram dois meses de treinamento na Academia de Polícia, tempo insuficiente para formar até mesmo porteiro de prédio, foram presos. Não sei por qual razão lógica continuam ainda em liberdade o governador e o secretário de Segurança que lançam às ruas agentes fortemente armados e com precária formação para fazer a segurança de cidadãos indefesos que pagam seus impostos.
  No Paraná, investigadores de Polícia estão há anos acumulando a função de carcereiros. Agentes que investigam e prendem passam a ser os responsáveis pela custódia dos presos dia após dia. Uma situação tão inusitada que nunca foi comentada por nenhum especialista em segurança do mundo, pois acredita-se que tal insanidade não ocorra.
  Enquanto a população do Paraná aumentou significativamente, o número de agentes policiais foi sendo reduzido ano após ano. O governo atual, que luta arduamente para corrigir em 9 meses os erros acumulados em mais de 7 anos, chegou a afirmar que a Polícia Judiciária está com uma defasagem de quatro mil homens. Isso demonstra que a contratação de um número significativo de agentes é medida de extrema urgência, independente de qualquer outra condição.
  Já que todo governante alega que irá investir em inteligência, e combater a corrupção, é aconselhável que comece a agir também com inteligência. Logo, convém lembrar que tecnologia não substitui o homem, pois não existe polícia sem policiais. Investigadores de Polícia não são carcereiros. Corruptos jamais agirão contra a corrupção. Bastará a designação de um único corrupto para um cargo de comando para que todos os demais desonestos se sintam à vontade. Isso é extremamente assustador e maléfico para a população e para todos os policiais que honram e dignificam tão nobre profissão. Seguindo estes conselhos, o governante demonstrará coerência, inteligência e vontade de fazer algo diferente para que, enfim, possamos obter resultados diferentes. A situação é extremamente caótica, mas ainda há esperança.

CLAUDIO MARQUES DA SILVA é delegado de Polícia e especialista em gestão de segurança pública

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