Na madrugada do último dia 13, orei e chorei de emoção. Era içado à superfície o primeiro dos 33 mineiros soterrados no norte do Chile nas minas de San José durante 70 dias. Que lições se podem colher? Assistimos a uma espetacular superação dos limites que normalmente nos parecem caracterizar. Ali, em situação extrema e completamente inóspita, na incerteza total de possível salvamento, homens usaram como recurso único a sua fé! Em primeiro lugar a ''certeza interna e indizível'' de que Deus não os abandonaria. Isso é imprescindível para alguém se manter vivo! Seja a 700 metros de profundidade no deserto chileno, seja nas catacumbas da vida ou nos porões da humanidade em qualquer lugar do planeta!
Um sentimento que é inexplicável à luz da ciência e que se constitui na essência do que somos na verdade: pessoas que têm dentro de si muito mais do que elas mesmo podem constatar na normalidade de sua existência. A fé em Deus é um vínculo que se evidencia em momentos extremos e que funciona como misterioso combustível para voos nunca anteriormente imaginados. Os mineiros, soterrados vivos a quase um quilômetro da ''vida'', souberam acreditar. Venceu mais do que a religião, a fé!
Mas essa fé não foi só em Deus! Foi fé no Chile! Foi fé no homem! No homem que é capaz de (quase) tudo quando assim o deseja! O mundo inteiro assistiu com emoção ao que infelizmente a práxis humana diariamente procura negar e sufocar mais do que as toneladas de terra e rocha nas minas chilenas! Quando quer, quando acredita em si mesmo, o ser humano consegue se transcender e alcançar patamares inimagináveis e em suas ações reafirmar a tese bíblica da ''imagem e semelhança de Deus''. O homem ganha asas. O homem vira homem. As contradições e os paradoxos do ser que mata milhões de semelhantes em guerras estúpidas e desumanas e, ao mesmo tempo, usa todos os recursos para trazer de volta à vida um irmão soterrado abre espaço para sonharmos e lutarmos por um mundo diferente. Está no DNA de cada um de nós. Corre nas nossas veias o sangue da irmandade que não pode ser fratricida, mas que deve ser apaixonadamente solidário e fraternal.
O Chile mostrou o que todos já deviam saber! Quando queremos, quando acreditamos, quando temos senso de família (pátria) nos tornamos um. Cada membro é imprescindível para a harmonia e por ele lutamos até as últimas consequências. O Chile saiu ''mais Chile'' desse episódio! O mundo se banhou em alegres lágrimas e o homem teve oportunidade privilegiada de refletir sobre si mesmo. Não somos o que parecemos! Somos muito mais do que imaginamos quando nos abrimos ao semelhante impotente que de nós precisa para retornar à vida! Somos os parteiros da esperança e não coveiros dos sonhos que ajudamos a sufocar.
Um país se torna corpo coeso quando 17 milhões ficam de olhos petrificados na TV vendo seus concidadãos retornarem ao solo que os viu nascer pela primeira vez. Que imagem maravilhosa e densa de simbolismo! Um país que dá à luz o seu cidadão! Uma pátria que não abandona no coração da terra os que dela sempre fizeram parte e com seus impostos e trabalho a fizeram crescer! Uma nação cujo chefe, dorme e acorda in loco enquanto o último filho não volta à superfície! Com este episódio sintomático, se resgata a posteriori o verdadeiro papel de um Estado e de seus organismos: ir além do possível para que todos vivam banhados pelo sol que nasce para todos -nos Andes ou em qualquer lugar do planeta!
MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é padre em Londrina

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