Viaja-se mais, passeia-se mais, come-se (de) mais! Parece que tudo corre sobre trilhos! Mas quando baixamos a lupa, verificamos o seguinte: trilhos, se algum dia existiram, e todos sabemos como seriam imprescindíveis hoje, não existem mais! Os portos repletos de navios em fila de espera apresentam capacidade defasada e anacrônica, no máximo para o tempo em que exportávamos café e não saboreávamos as delícias dos moderníssimos cruzeiros que hoje marejam em nossas águas. A comida é ainda barata, mas a qualidade de nossos restaurantes é incompatível com as exigências da elevação do nível social do país! Enfim, em nível infraestrutural estamos anos-luz aquém do minimamente necessário para viabilizar o tal crescimento esperado e merecido!
Este é o Brasil que o próximo presidente vai herdar e assumir. Uma Copa pela frente e uma Olimpíada no horizonte que, se nos cegam pela importância, nos ofuscam pela apreensão de não darmos conta do recado. Desafio de tirar o sono a quem ocupar o Palácio do Planalto nos próximos anos. Temo que tenhamos belíssimos estádios e a eles não consigamos chegar para saborear os espetáculos! Tenho receio que se repitam nos principais aeroportos do país as cenas que tanto nos têm incomodado ultimamente. O povo quer voar, mas é forçado a ficar no chão com suas bagagens servindo de travesseiros! Enquanto isso, nas estradas bem pagas, caminhões continuam semeando toneladas de grãos das safras que se superam ano após ano! Acidentes se multiplicando nas esburacadas rodovias com alto preço emocional e financeiro para a nação.
O Brasil que vem aí é a continuidade do Brasil da estabilidade financeira que se consolidou ao longo dos últimos anos. Mérito dos dois últimos presidentes. É o país que se impôs ao mundo mostrando resultados na redução da pobreza e eficiência no tratamento de doenças nomeadamente a Aids. É o país da tolerância e da liberdade como expressão cultural, que nem a ditadura conseguiu eliminar! É a nação que quer e tem o direito de ocupar lugar de destaque no tabuleiro geopolítico internacional. Enfim, Deus continua sendo brasileiro!
Apesar de tudo isso, e se é notória a evolução em todos os níveis mencionados, continuamos estagnados e engatinhando no que diz respeito ao fortalecimento das instituições democráticas. A corrupção presente nas várias esferas do poder corrói a confiança nas mesmas e coloca em risco a estabilidade política e social que sempre desejamos alcançar plenamente. A justiça cara e demorada torna-se, portanto injusta! Quem não tiver dinheiro não tem acesso a ela! O abuso das demandas originadas por uma cultura nitidamente belicista em que sempre se acha vantagem em levar adiante o conflito judicial, aliada a uma performance equivocada de muitos advogados que esquecem sua missão pacificadora, criam autênticos blackouts nessa área que também representa de forma privilegiada o avanço ou estagnação de um país.
O Congresso Nacional subserviente ao Executivo tornou-se desde o início dos anos 90 uma calamidade nacional, que permite ao presidente da República governar como se de um rei absoluto se tratasse implicando em medidas provisórias e leis que nem sempre passam por uma discussão ampla e séria. Finalmente este país que vai acordar dia 1 de janeiro de 2011 é o antro das reformas que não saíram do papel e que engessam as mudanças fundamentais para a sua emancipação - a política, a tributária, a judiciária e porque não dizer a sindicalista! Nenhum governante dos últimos anos teve coragem para levá-las adiante. Na verdade, ninguém quer cortar na própria carne! Avançar é preciso! Crescer é legítimo! Que se coloque então o Brasil nos trilhos!
ROMÃO ANTONIO MARTINI MARTINS é pároco da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora de Londrina

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