O resgate dos 33 mineiros no deserto de Atacama no Chile no dia 13 de outubro de 2010 deixou um registro indelével na história mundial. Um capítulo inesquecível aos olhos e aos corações de milhões de pessoas.
Muitas lições podem ser extraídas desse episódio, cujo drama se iniciou em 5 de agosto na mina de San Jose. Um minucioso planejamento com todo conhecimento científico possível, aliado à inabalável esperança de sobrevivência, manteve viva a confiança de todos, acima e abaixo da terra.
Com cálculos precisos, alguns milimétricos, foi possível uma obra de engenharia de precisão extraordinária. Ensaios e simulações onde se pensou em tudo, cada detalhe, cada aspecto, cada possibilidade.
Passo a passo, uma equipe bem treinada com espírito de coletividade, unida por especialistas diversos, mas todos com o objetivo comum de salvar todas as vidas que estavam a 622 metros abaixo da terra.
Um exército do bem, com determinação e coragem para colocar em prática tudo que a ciência legou ao homem, cada qual com sua parte, seu ofício, sua arte.
A missão já iniciou com sucesso quando se enviou, de cima para baixo, o primeiro socorrista. Esta atitude, fruto de muita sensibilidade e inteligência, foi fundamental para assegurar aos soterrados, que o caminho inverso era somente uma questão de tempo, além de demonstrar que toda a operação estava cercada de muita segurança.
Lá embaixo, a sabedoria popular do líder dos mineiros, Luis Urzúa, de 54 anos de idade, utilizando sua experiência para contemporizar e acalmar os soterrados. Seu equilíbrio e otimismo foram imprescindíveis para levar aos demais mineiros a esperança de serem resgatados com vidas. Seus gestos e palavras proporcionaram não só a divisão da comida e da água, mas principalmente alimentou a esperança dentro do grupo pelo compartilhamento.
Um notável modelo de hierarquia do bem, sem a vaidade que algumas vezes escurece o pensamento do homem no raciocínio lógico para buscar a sobrevivência. O excessivo calor de 40 graus, dentro do confinamento de 53 metros quadrados onde estavam os mineiros, não foi suficiente para causar pânico e desespero.
Comandados pelo líder, a tranquilidade e a calma foram importantes para preservar a paciência, com o objetivo de vencer, sem deixar aflorar o egoísmo e o desânimo. Não havia também espaço para pavor e horror, pois naquela profundeza só existiu reais ensinamentos de fé inabalável.
Aqui do lado de cima, milhares de pessoas, espectadoras e confiantes na execução dos trabalhos. O que também de mais espetacular se percebeu no resgate foi a fraternidade demonstrada pelo sentimento de familiares, amigos e colaboradores. A cada resgate uma conquista, celebrando a vida com alegria e crença em Deus. Adultos, jovens, crianças, autoridades e pessoas comuns se misturavam de felicidade, demonstrada pelos sorrisos, lágrimas, abraços, gestos afáveis e sinceros de acolhida.
Uma viagem abençoada de transposição da enorme montanha, divinamente guiada, saindo da escuridão para alcançar a luz. Esse episódio do Chile foi, sem dúvida, a mais sublime demonstração de união entre a ciência e a fé.
WILMAR MARÇAL é professor universitário e membro da Academia Londrinense de Artes, Ciências e Letras

mockup