Ecologia com ideologia
Clodomiro J. Bannwart Júnior

Mesmo com a surpresa do fenômeno ''onda verde'', o pleito presidencial de 2010 manterá inalterado o bipartidarismo PT-PSDB que neste ano completa 16 anos. No final do ano passado quando Mariana Silva anunciou sua candidatura à Presidência da República pelo Partido Verde, muitos analistas comentaram, de forma eufórica, o nascimento de uma espécie de terceira via na constelação da política nacional. O sociólogo Francisco de Oliveira chegou a afirmar que Marina surgia como ''um raio de sol'' diante do quadro PSDB-PT. Mais à esquerda, o economista Andreas Novy afirmou que ''Marina poderia assumir um papel progressista, se tivesse a coragem de romper o pacto do PV com as forças neoliberais do país, o que - segundo ele - parecia improvável''.
Afinal, o que representa o PV e Marina no quadro político nacional? O PV era um partido que não tinha nem musculatura nem identidade que o levasse além da bandeira ''verde''. Como muitos outros, foi um partido que, no varejo, firmou coalizões da direita à esquerda sem pesar a sua consciência política. Sua base ecológica (ambiental) não conseguiu se acomodar dentro de uma estrutura ideológica (política) definida. No Rio de Janeiro, por exemplo, maior vitrine do PV, Gabeira saiu candidato a governador numa ampla aliança com o PSDB, DEM e PPS.
No âmbito nacional Marina se empenhou em mostrar que a proposta de seu partido não se igualava com a dos demais. Seu discurso político cifrou a direita e a esquerda num mesmo denominador comum, procurando ir além das diferenças. Semelhantemente expressa o seu discurso religioso que incorpora, sem resistência, princípios da teologia da libertação com o repertório carismático evangélico. Suas preleções expressam a tentativa de conciliar a unidade dos contrários, quando não do próprio contraditório. Seguiu, nessa linha, muito próximo do que Lula sempre soube fazer com maestria.
Porém, é inegável que Marina representou uma biografia política e humana da mais alta grandeza no pleito de 2010. Seu capital social, forjado ao longo de décadas na luta ambiental, desde o contato com Chico Mendes nos seringais, passando pelo Ministério do Meio Ambiente e o Senado, rendeu-lhe um profundo conhecimento do país, tornando-se referência internacional na área ambiental. A ela coube ir além da redundância das coalizões e do deficit ideológico que pairam sobre os partidos, os quais, anestesiados não apresentam diferencial nos propósitos e soluções dos problemas nacionais, menos ainda programas de governo que atendam a expectativa do eleitorado. Marina conseguiu se sobrepor às perorações e aos jogos de cena típicos do jogo eleitoral.
Além de esmiuçar o sincretismo da política construída nos 25 anos de redemocratização, o discurso de Marina veio embebido de novas perspectivas. O fato de a preocupação ambiental ter ganhado destaque nos espaços da sociedade, inclusive sendo incluída na agenda política, é um ponto relevante a destacar. E cada vez mais fica em evidência que essa discussão não deve ser tratada de forma isolada. É urgente a necessidade de conjugar no conceito de sustentabilidade dois outros aspectos além do equilíbrio ambiental: o crescimento econômico e a justiça social. Isso, contudo, retoma os dois modelos conhecidos de Estado: liberal e intervencionista.
Logo após o término do primeiro turno, Marina comentou que ''o posicionamento de sua legenda não se dará em função de interesses puramente partidários''. Se a ela pertence o mérito de ter colocado o projeto ambiental na agenda política, cabe agora ao PV decidir qual das duas propostas de governo que disputam o segundo turno possui o melhor perfil para assegurar o desenvolvimento equacionado com sustentabilidade. É uma decisão que aproximará ou distanciará Marina de 2014.
CLODOMIRO JOSÉ BANNWART JÚNIOR é professor de Ética e Filosofia Política na Universidade Estadual de Londrina

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