ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 08 de outubro de 2010
Dom Orlando Brandes 
No centro do reino de Deus, Jesus colocou a criança. Ele condenou a quem escandaliza os pequeninos e dizia: ''Deixai vir a mim as criancinhas''. Nunca é demais o que fazemos pelas crianças. Elas são a eternização de seus pais, a alegria da família, o futuro da sociedade, o equilíbrio da humanidade. Nossa homenagem às crianças enfoca aquelas mais sofridas.
A criança no útero materno. Ela tem dignidade e direito de nascer, mesmo que tenha formato de feto ou embrião. Ela é um nascituro, alguém destinado a nascer. Nossas boas vindas a elas. Que não morram abortadas. Está em processo de aprovação o Estatuto do Nascituro no que reconhece a identidade e dignidade do embrião humano. A criança que é amamentada. O leite materno é nutrição, é remédio, é proteção. Amamentar é um gesto afetivo, catequético, humanizador. A criança bebe também o amor materno, cresce sadia de corpo e alma, de saúde física e afetiva.
A criança órfã. Sua esperança é a adoção. Gesto esse tão nobre que chega a ser divino. Como não bendizer e agradecer aos pais adotivos? Os que exploram a adoção e fazem comércio, sejam severamente punidos. A criança que sofre a separação dos pais. Ela é sempre a maior vítima da ruptura familiar. A ferida da separação é um corte na própria carne da criança, é um trauma, uma dor que custa sarar.
A criança vítima do trabalho escravo. A exploração dos menores no trabalho forçado e escravo é ainda uma chaga social. Não se deve confundir trabalhos normais da criança em casa com o trabalho escravo. Ajudar em casa é sadio e educativo. A criança que sofre abusos sexuais. Esta anomalia é ainda tão frequente e acontece nos lares, nas escolas, nas igrejas. É um pecado que clama aos céus. A pedofilia é uma praga. A vítima da pedofilia passa a sofrer de uma ferida quase incurável. Só o perdão remove esta experiência dolorosa.
A criança coagida à prostituição. Sabemos que a prostituição infantil, o turismo sexual, o abuso de menores têm suas raízes na miséria e na pobreza, no erotismo e na ambição por dinheiro que é a raiz de todos os males. Só no Sul do Brasil há 399 focos de prostituição de menores. A criança vítima da Aids. É alarmante a situação em quase todo o mundo. É hora de fidelidade conjugal e de combate ao erotismo generalizado. Todos precisamos fazer o teste de Aids o mais cedo possível. A castidade humaniza a sexualidade. Hoje, infelizmente, as crianças são também vítimas das drogas. A criança sem escola. Temos ainda um longo caminho a percorrer no combate ao analfabetismo. Família estruturada, combate à pobreza e educação infantil são os bons anjos protetores de nossas crianças.
A criança recrutada pelos exércitos. É comum vermos nos noticiários, crianças sendo treinadas a matar com fuzis e outras armas mortíferas. Eis a que ponto chega a cultura da morte e o espírito de vingança. A criança vítima do tráfico. Crescemos em ciência e tecnologia, somos povos modernos, mas, ainda sofremos com estes males bárbaros e desumanos do tráfico de crianças. Sem um desenvolvimento integral não amadurecemos. Temos muito a progredir no campo ético, afetivo e espiritual, para sanar tudo o que ainda envergonha a humanidade.
Nossa homenagem às crianças estende-se às mães, aos educadores e catequistas, às creches e pastorais que privilegiam a criança como a Pastoral da Criança, a Pastoral do Menor, a Pastoral dos Coroinhas, a Infância Missionária. Não podemos deixar de recordar da inesquecível doutora Zilda Arns que, no seu último discurso antes de morrer, disse: ''Como os pássaros que cuidam de seus filhos ao fazer seu ninho no alto das árvores e nas montanhas longe dos predadores, das ameaças e dos perigos e mais perto de Deus, devemos cuidar de nossos filhos como um bem sagrado, promover o respeito a seus direitos e protegê-los''.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


