ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de outubro de 2010
Alex Assunção Lamounier 
Está se iniciando a segunda etapa da reforma do Calçadão de Londrina, apesar dos apelos de parcela da comunidade preocupada com a perda de um dos símbolos da cidade: o piso em petit pavê com motivos geométricos. A justificativa encontrada pela troca do piso é a de quebra de salto alto e queda de pessoas. Os acidentes são, na verdade, o resultado da falta de conservação dos trechos de pedras soltas e grelhas enferrujadas. A pedra, material nobre e durável, está sendo substituída por blocos de cimento: os pavers, de durabilidade desconhecida.
Ao retirar o piso atual, todo o mobiliário e sua disposição estão sendo modificados. Saem as luminárias araucária que duraram mais de 30 anos, para a sua substituição por uma mais moderna. Esta não será a última reforma do Calçadão. A cada cinco ou seis anos são substituídas partes do mobiliário, modificada sua disposição ou ainda colocados outros, de acordo com a inspiração do momento.
Certamente, o que hoje é considerado bom porque é ''novinho em folha'' será logo substituído porque existe uma espécie de obsolescência programada. Nada é antigo e sim velho, ruim.
Os quiosques originais, em perfis de aço e abóbadas de fibra de vidro poderiam durar mais algumas dezenas de anos. Sua permanência ao longo de décadas significou a existência de uma clientela fiel que, de alguma forma, colaborava com a animação do local.
A novidade mais recente do Calçadão é a ''Academia ao ar livre'', em substituição aos quiosques, mostrando uma tendência à padronização de todos os espaços livres públicos da cidade. O processo chamado de revitalização do Calçadão ocorre como se tratasse da reforma de uma loja de shopping, onde sempre se tenta apagar as marcas do tempo.
Aproximamos nossos espaços públicos da imagem de uma ''disneylândia'' e permitimos a anulação de significados. Esquecemos símbolos como a referência à ''Boca Maldita'', hoje quase imperceptível na praça Gabriel Martins.
Afinal, o que é atratividade no espaço urbano? Por que alguns espaços parecem ser eleitos enquanto outros são deixados ao abandono?
Pesquisas britânicas sobre ruas notáveis defendem que a pátina ou a permanência de características que apontam a idade do local é uma qualidade importante de espaços dos quais as pessoas costumam se lembrar. Quando visitamos outras cidades queremos, em geral, ver coisas antigas. Em nossa cidade, no entanto, parecemos concordar com a insistência na supremacia do novo.
Uma recente opinião de leitor da FOLHA falava lamentavelmente: ''Chega de discussão sobre o Calçadão. Estamos cansados!''. Discussões frente à anulação dos símbolos e elementos históricos devem ser permanentes e não apenas se restringir a manifestações conforme o tema do momento.
Curiosamente, uma nova praça em um bairro da cidade reproduz o piso em petit pavê com motivos geométricos e as luminárias em araucária e recebe aplausos. Destruímos o Calçadão e aprovamos uma cópia. Elogiamos projetos que lembram áreas existentes como se elas tivessem deixado de existir há algumas décadas ou centenas de anos.
A manutenção continuada de uma paisagem reconhecível que tire partido da grande durabilidade dos elementos tradicionais pode ser uma forma eficiente de garantir a permanência de símbolos importantes da cidade.
ALEX ASSUNÇÃO LAMOUNIER é arquiteto em Londrina e professor Unesp em Presidente Prudente (SP)


