Como muitos brasileiros, acompanhei passo a passo a apuração das eleições, ouvindo os comentaristas, observando os resultados de cada Estado, percebendo alguns fenômenos exóticos das urnas. No primeiro turno das eleições à Presidência perdeu Dilma Rousseff, antes amplamente divulgada como vitoriosa pelas pesquisas, ganharam Marina Silva, pela expressiva votação, e José Serra, pelo segundo turno. Nesse contexto, faço algumas considerações.
Em primeiro lugar, o eleitor quer renovação. Mais de 53% da população disse que não quer a sucessão de liderança proposta pelo atual governo. Isso é muito significativo, pois essa resposta nas urnas foi no contexto de um intenso empenho do presidente da República que, mesmo envolvendo-se pessoalmente como cabo eleitoral de sua candidata, não conseguiu transferir sua respeitosa aprovação da população. Decorrente disso ocorre-me a segunda consideração de que o eleitor consegue discernir a diferença entre Lula e Dilma. Ou seja, mais de 80% dos eleitores aprovam o governo Lula, mas somente 46% atenderam seu apelo de votar em sua indicada. A população agradece o trabalho realizado por Lula, mas não reconhece Dilma como sucessora de seu modo de pensar, sentir e decidir. Os caminhos da história que fizeram Lula ser quem é foram muito diferentes daqueles trilhados pela candidata.
O movimento na direção da candidata Marina com seus surpreendentes quase 20% enseja a terceira consideração de que o eleitor deseja candidatura baseada em propostas, pois foi a única que trabalhou dessa maneira. É necessário que a proposta de cada candidato seja amplamente divulgada por seus sites, nos debates e nas entrevistas. Não é mais aceitável um comportamento improvisado e discursos mutantes e convenientes ao contexto que são formulados. Também não é mais aceitável deixar de lado todo o tipo de corrupção como que se nunca tivesse relação com o status quo.
Em quarto lugar parece-me que o eleitor reage à impunidade. Todos assistiram à queda nas pesquisas da candidata Dilma nos últimos dias, mais particularmente no momento subsequente à flagrante e abafada história de corrupção envolvendo sua sucessora na Casa Civil. Além dessa reação, os resultados da urna me fazem crer também que o eleitor reage à prepotência e arrogância. Essa quinta consideração decorre do outro movimento observado na queda do percentual dos votos da candidata Dilma consequente da batalha travada entre ela e o presidente Lula contra a imprensa. Os editoriais dos principais meios de comunicação da imprensa escrita do país reagiram veementemente, forçando o quase pedido de desculpas por parte do líder maior do país.
Em sexto e último lugar afirmo que o eleitor quer saber mais dos candidatos. O segundo turno significa implicitamente que o eleitor não sabe o suficiente para sua decisão final. Essa campanha foi fortemente marcada pela artificialidade dos marqueteiros mascarando e blindando, em especial, a candidata Dilma. Requer-se que expressem o que pensam sobre os aspectos econômicos, sociais e éticos. Há muito que se discutir. Afinal, estamos perto de um colapso logístico, temos uma educação lamentável, oferecemos serviços de saúde medíocres, temos uma máquina de Estado inchada e ineficaz, acumulamos uma poupança interna inexpressiva, vivemos um deficit habitacional desumano, dentre outras coisas. O eleitor quer saber o que pensam, no que creem, o que sentem, como decidem, como reagem.
Dizem os experientes analistas políticos que o segundo turno é uma nova campanha. Nesta semana o colégio eleitoral do Brasil deu a largada oficial para essa nova etapa. É um novo tempo aos candidatos, mas principalmente aos eleitores que estão com o poder em suas mãos.
RODOLFO MONTOSA é administrador em Londrina

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