ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Clodomiro J. B. Júnior e Thiago J. Esteves 
Vinte e seis anos após as Diretas Já, a sexta eleição presidencial que acontece no próximo domingo permite olhar no retrovisor da história e visualizar algumas pistas reveladoras do percurso democrático construído nesse período. Com o fim do regime militar era esperado que o processo de transição para a democracia fosse capaz de oxigenar a política nacional por meio do fortalecimento dos partidos e suas diferentes correntes ideológicas, ressaltando, sobretudo, o pluripartidarismo.
De saída, em 1989, a primeira eleição presidencial democrática revelou uma tendência que se fez presente em eleições posteriores: a irrelevância dos partidos políticos. Fernando Collor chegou à Presidência da República pelo PRN, partido criado em fevereiro de 1989, sem lastro ideológico nem projeto para o país, e que em menos de dez meses o elegia presidente. Os partidos fincados em bandeiras ideológicas, no esteio da luta pela redemocratização, foram, na época, atropelados pelo personalismo do caçador de marajás.
Com a eleição de 1994, a sociedade entendeu que não se consolidaria o Estado democrático sem antes derrubar a inflação que corroia a economia. Empunhando a bandeira do plano real, FHC, candidato do PSDB, é eleito e reeleito entrincheirando a política no arcabouço da economia, desfraldando a ideia de modernização que acompanhava a lógica neoliberal e fazia o Estado enxugar seus excessos. A promessa de partejar uma nova classe média, não obteve sucesso devido às crises no sistema financeiro mundial e ao crescimento pífio da economia no período.
Em 2002, o PT na sua versão light, se esforçava por fazer crer, com a bênção do Partido Liberal, que era possível manter o equilíbrio inflacionário conquistado e, ademais, aliar geração e distribuição de renda. O êxito do governo Lula conseguiu um feito que muitos cientistas políticos apontam como importante para a democracia: o fortalecimento da classe média. Importante por dois motivos. A classe média é menos dependente das políticas assistencialistas do governo e pressupõe, por esse motivo, ser mais exigente quanto à excelência do governo.
Contudo, a eleição de 2010, de acordo com as pesquisas de opinião, conduzirá ao poder uma figura pouco conhecida da maior parte da população e que até então não havia disputado nenhuma eleição: a ex-ministra Dilma Rousseff. O voto de gratidão, que também funcionou na eleição de FHC, ajuda na compreensão deste fenômeno. Parte da sociedade altamente ideologizada, inebriada pelas conquistas econômicas e sociais parece ignorar a crise de corrupção instaurada à sombra do governo, o que se deixa revelar nas intenções de voto na candidata do governo. Outra parte significativa, descomprometida com o debate político ou desiludida com os políticos tradicionais opta pelo voto ''Tiririca''.
O encantamento de outrora, da eleição collorida, tal como o canto da sereia na Odisséia de Ulisses, seduz novamente e reedita no pleito de 2010 roteiro semelhante de 1989. A conjunção de persuasão carismática e populismo paralisa a tematização crítica, destrói o contraditório, enfraquece a oposição e faz a democracia respirar com dificuldade.
CLODOMIRO JOSÉ BANNWART JÚNIOR é professor na Universidade Estadual de Londrina e THIAGO DE JESUS ESTEVES é professor no Centro Federal de Educação Tecnológica no Rio de Janeiro


