Haverá um dia neste país em que debateremos programas, ideias e formas de colocá-las em prática durante as campanhas eleitorais? É sabido que Barack Obama, negro, jovem e relativamente desconhecido, elegeu-se presidente dos Estados Unidos porque sua equipe assim o fez seja nas mídias tradicionais, seja na internet. Não se perderam no denuncismo escandaloso, nos ataques pessoais e na divulgação de fatos pouco comprováveis. Fixaram-se em programas.
Recebo diariamente pela internet e-mails indesejados, não solicitados e que invadem minha privacidade (sem falar nos telefonemas gravados dos próprios candidatos). Discutir programas ninguém quer, talvez por nem os ter. E por que haveriam de pensar que quero receber e-mails com mensagens desmerecedoras da maioria dos candidatos? De todos os partidos? E o pior é quando parentes, amigos e conhecidos assim o fazem. O que ganham agindo assim?
Quero mesmo colocar aqui é a minha indignação contra uma certa atitude discriminadora contra a mulher candidata (sem falar nas que sofremos todas nós diariamente). Uma candidata é acusada de abusar do fato de ter sido pobre e ter que se ocultar em outras roupagens, cabelo e maquiagem, para não deixar claro sua escolha religiosa. Outra é acusada de esconder seu autoritarismo em um novo figurino, novos penteados, cirurgias plásticas, nova forma de falar e de se esconder na popularidade do presidente Lula.
Ora, essas são estratégias de marketing bastante populares até. Que o digam as ditas ''celebridades'' produzidas da noite para o dia e que rendem imensos dividendos para si e para todos que os cercam. Fico perplexa em perceber o mais reles machismo contra as mulheres em algumas matérias. O que me deixa alerta é a adesão de muitas mulheres ao que é veiculado.
Ressalto apenas dois fatos de uma matéria de um jornal paulista bastante conhecido nacionalmente. Quando se exigiu de um candidato masculino cenas em que apareça junto aos seus filhos, meigo e carinhoso? Sabemos que ''babados'' pelos filhos dos outros eles sempre aparecem. Pois foi isto o que se exigiu e cobrou de uma candidata - quem já a teria visto ao lado de sua filha? Cobrou-se dela também cenas familiares.
Nunca se exigiu de um candidato mostras da sua masculinidade seja no trajar, no falar, no discursar. Pois da candidata se exigiu, se cobrou seu mandonismo próprio de um homem e não de uma mulher (não está assim escrito, mas é bem deduzível esta intenção).
O que quero perguntar às mulheres é por que aderem ainda a um discurso desse tipo que as discrimina, marginaliza e ignora sua luta diária no serviço e na casa? Aos homens pergunto: é essa imagem mesmo que fazem das mulheres em geral e das suas em particular?
Onde quero chegar? O país quer um presidente ou uma mãe (autoritária ou meiga não importa)? O país quer um presidente que proponha um programa executável ou serve um que caiba em um modelo já preconcebido? Desde que seja um homem? Já não bastassem as restrições impostas às candidaturas femininas, já não bastassem todas as discriminações sociais e todos os preconceitos a que somos submetidas cotidianamente e ainda temos que ''aceitar'' que façam a nossa cabeça contra mulheres (apenas por serem mulheres) em um momento em que estamos escolhendo quem vai dirigir o país nos próximos quatro anos? E que deveríamos escolher pensando na melhoria das condições de vida de nossos pais e mães, maridos, irmãos e irmãs, filhos e filhas, da população em geral? Para iniciarmos a jornada da construção de uma vida mais digna porque cada vez mais humana.
VILMA FERNANDES NEVES é doutora em Educação em Londrina

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