Amar a pátria é exorcizar a corrupção. A pátria é mãe, é casa, é chão, é filiação a um solo, um povo, uma história comum. Nossa pátria vive mais um momento eleitoral.
O Catecismo da Igreja Católica nº 2.534 define a corrupção como: roubo, rapina, fraude, especulação, salário injusto, lucro desonesto, elevação de preços, falsificação de cheques e faturas, gastos excessivos, desperdícios, tráfico de pessoas, extorsão, falsificação de documentos (cartórios), prejuízo de inocentes, processo e contratos falsos, dívidas por má administração. Como vemos, o Catecismo deu nome aos bois. Eis o subdesenvolvimento ético.
A Doutrina Social da Igreja prescreve a reparação dos danos causados pela corrupção e ainda mais, a restituição do que foi roubado. Em junho de 2006, o Pontifício Conselho Justiça e Paz organizou uma Conferência Internacional sobre a ''Luta contra Corrupção''. A conclusão do evento confirmou que a corrupção tornou-se um hábito, uma cultura. Entre nós, é a mania de levar vantagem em tudo acobertada pelo ''jeitinho brasileiro''. Eis o pecado e a iniquidade social.
Por conta da corrupção temos a impunidade, os paraísos fiscais, o tráfico de crianças, de órgãos, de pessoas, de armas e de drogas. É o chamado dinheiro sujo. Existe uma exportação da corrupção alimentada pelo cinismo egoísta, interesses privados, desprezo moral, instrumentalização das pessoas, cumplicidade, obscurecimento da consciência. ''Não podeis servir a Deus e ao dinheiro'' (Mt 6,24).
Desde sempre Deus criou os bens para todos, protegeu o órfão, a viúva, os pobres e os estrangeiros, prescreveu o Ano Santo (Lv 24) para restabelecer a justiça e a igualdade social. Os profetas enfrentaram autoridades políticas e religiosas em defesa dos pobres, da honestidade, da justiça social. Jesus declarou benditos os que ajudam os pobres, doentes, presos, peregrinos. Trouxe o reino de Deus que é o reino de vida, da verdade, do amor e da paz. Os santos padres ensinaram que o supérfluo não nos pertence porque é dos pobres. Eis o que significa economia e vida.
O que nos salva é a solidariedade, a partilha, a economia solidária, as políticas públicas, a organização popular, a educação para a justiça. Nada mais acertado que a opção pelos pobres e a ação libertadora e transformadora. Uma economia de comunhão, de gratuidade, de dádiva, é possível. No mundo somos uma família, portanto, somos irmãos. O capital mais precioso é o capital humano. Somos uma só carne.
Não há democracia nem ética humanitária na economia mercantil, lucrativa muitas vezes justificada pela teologia da prosperidade. A crise financeira, alimentar, ecológica não é fatalidade nem acaso é efeito do lucro descabido e da corrupção. A razão de ter mais é para o ''ser mais''. A lógica do bem comum é o remédio amargo, mas necessário.
Merecem atenção e apoio as instituições sociais que se organizam em favor da vida e da dignidade humana. O verdadeiro humanismo consiste em colocar o outro no centro. É o princípio da centralidade da pessoa que acontece em asilos, creches, hortas comunitárias, associações beneficentes, banco do povo, etc. ''Os povos da fome se dirigem de modo dramático aos povos da opulência'' (Paulo VI). As riquezas são para todos, por isso sem homens retos é impossível superar a corrupção. A grandeza de um país não se mede pelo número de milionários, mas pela ausência da fome, dizia Ghandi.
Precisamos de um desenvolvimento ético e espiritual para barrar a corrupção. O amor cuida e zela pelo outro e pelos seus interesses. A caridade na verdade, tema da recente encíclica de Bento XVI, é a grande luz para uma economia diferente. Amor político, amor social, amor incondicional, amor aos inimigos é a contribuição do evangelho, do reino de Deus e da Doutrina Social da Igreja para uma sociedade honesta e transparente.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

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