ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Dom Orlando Brandes 
A Bíblia contém o desígnio de amor de Deus pela humanidade. Revela projeto do reino, o plano salvífico no qual estão as condições básicas de vida, os bens necessários, os meios de convivência fraterna e social os caminhos e dons da salvação pela graça. Deus faz a política da vida, do bem comum, da dignidade humana, da justiça, do amor, da salvação.
O Criador deu-nos a terra, a família e escolheu um povo para viabilizar seu plano de salvação. Terra, povo, condições de vida, fraternidade são os eixos da política de Deus, isto é, do seu amor pela humanidade. Mais clara é a intervenção de Deus na política ao libertar seu povo da escravidão. ''Eu vi a aflição do meu povo, ouvi os seus clamores, conheci seus sofrimentos, desci para libertá-lo e fazê-lo sair do Egito para uma terra onde corre leite e mel'' (cf Ex 3,7-8).
Para que a vida pessoal e social da humanidade fosse preservada e promovida, Deus estabelece o compromisso da Aliança e então é dado a todos os Dez Mandamentos. Estas leis constituem um extraordinário plano de convivência humana, pessoal e social, um roteiro ético, uma lei moral natural, portanto, ''as regras primordiais de toda a vida social'' (João Paulo II).
Especial atenção é dada aos pobres (Dt 15,7-8), ao estrangeiro, ao órfão, à viúva. Eis a política na Bíblia. Por ordem divina o povo devia observar o ''ano jubilar'' (cf Lv 25), para reordenar a vida social e econômica, regulando o perdão das dívidas, o descanso da terra, a libertação dos escravos, a partilha dos bens. João Paulo II diz: ''Os preceitos do ano jubilar constituem uma doutrina social nuclear''.
Inspirados pelo Espírito Santo os profetas enfrentam as realidades políticas, econômicas, sociais. Os livros proféticos são livros santos que corrigem o culto falso e a política da corrupção. Desmascaram os falsos profetas, desafiam as autoridades e governos injustos e denunciam toda exploração e pecado social, defendem o direito e a justiça. A desobediência a Deus, levará à derrota e ao exílio. Todavia, os profetas anunciam a vinda do Messias e seu reino. São agentes da esperança.
Jesus anuncia e implanta o reino da vida, da justiça, da verdade, de alegria, do amor e da paz. O Filho de Deus, Jesus de Nazaré, é a esperança dos pobres, dos coxos, dos cegos, dos prisioneiros. Ele passou fazendo o bem e desagradou ao poder político e religioso do seu tempo. Morreu para nossa salvação e em favor de uma nova humanidade. Foi acusado de agitador político e de blasfemo. Sua vida e seu reino, sua sabedoria e profecia, seu evangelho é a grande notícia para os pobres e pecadores. Esta é a política de Jesus. Seu partido é o amor, a verdade, o evangelho, o reino, as bem-aventuranças. No entardecer de nossa vida seremos julgados pelo que fizemos, pelos pobres, presos, doentes, migrantes. É a ''política da salvação'' ou a ''santidade política''.
Maria, mãe de Jesus, reza para que os famintos sejam saciados, lembrando que Deus dispersa o coração orgulhoso, derruba os poderosos, exalta os humildes, despede ricos de mãos vazias. É uma oração profética, corajosa que atinge o mundo da política, da economia e do poder.
Paulo apóstolo, foi julgado como alguém perigoso para a política de Pilatos e do Imperador. Foi encarcerado, processado, julgado e decapitado. Sua missão era levar o nome de Jesus às nações pagãs, aos reis e aos filhos de Israel (cf At 9,15). É Paulo que pede a Filemon, a libertação do escravo Onésimo para que ele seja reconhecido como cidadão livre. Onésimo será bispo de Éfeso. A carta de Paulo a Filemon é uma catequese libertadora uma preciosidade da Bíblia enquanto pedido de libertação da escravidão.
À luz da Bíblia, a Patrística, período dos primeiros séculos da Igreja, é um tesouro de doutrina social e política, onde os cristãos são chamados de ''alma do mundo''. O supérfluo não nos pertence, é direito dos pobres. Portanto, a vida política e econômica deve se reger pela lei da sobriedade.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


