ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Aline de Paiva Morales 
Falar em reprovação mais do que uma retenção na agenda escolar e social de um indivíduo, é tocar nas culturas política, escolar e docente do país, fato que provoca críticas tão relevantes quanto um ritual sagrado. Estatísticas mostram que o Brasil é o país que mais reprova levando prejuízos a todos os envolvidos. Mais do que conviver em salas numerosas e com disparidade de idades, os repetentes perdem o estímulo e a autoestima.
Esse tema tem merecido grande destaque em estudos, seminários e debates. De um lado está a afirmação de que o sistema educacional falha e que obrigar o aluno a refazer o ano letivo não ajuda a aprender. Por outro lado encontra-se a cultura organizativa escolar que força a adaptação de alunos e professores. Muito raro deu-se prioridades às tentativas de mudanças nas engrenagens dos sistemas escolares devido principalmente ao peso que se estrutura as lógicas escolares conservadoras.
A realidade é que não se sabe a quem atribuir a culpa. O sistema responsabiliza o aluno pelo fracasso escolar, ora a família, mas raramente a formação docente ou organização escolar. Quando se culpa o sistema educacional ou a prática docente fica a impressão de que a escola pode ser diferente desde que professores e alunos passem por uma espécie de conversão. Finalmente, os alunos têm de se adaptar à escola e às lógicas estruturantes, não o contrário. Isso porque a engrenagem escolar vem predefinida e pouco importa valores sociais, cognitivos e culturais, importa que todos se adaptem à estrutura organizacional da escola. Esse ponto de vista sugere a reprovação dos desadaptados, mas acarreta efeitos devastadores em aspectos fundamentais no processo educacional.
É preciso repensar a prática pedagógica, mas é preciso também considerar a estrutura escolar, pois as lógicas sociais dos educandos não são as mesmas que estruturam a escola. Os alunos estão estruturados a partir da lógica humana e a escola a partir de suas lógicas organizacionais que intitulam a (in) disciplina e medem a qualidade do ensino.
De fato muitos alunos não compreendem a hierarquia escolar e consequentemente o ofício de aluno, culminando em resistências que podem ser um alerta à revisão de práticas e posturas. É conveniente concordarmos também que existem tantas transgressões docentes quanto discentes.
As reações a favor da retenção estão baseadas, sobretudo, na impossibilidade de trabalhar com alunos que passam sem dominar habilidades básicas exigidas. As próprias famílias apoiam a retenção dos filhos em vez de buscarem alternativas e, além disso, esquecem que a retenção não é somente um problema do sistema de ensino, do governo, do Estado e das escolas, é um problema pedagógico, que exige concepção de educação básica, respeito ao percurso de formação, de direito a não interrupção dos processos socializadores. A repetência escolar segrega, discrimina, desmotiva e interrompe o processo de formação e de aprendizagem. Não seria mais fácil ensinar e aprender com práticas igualitárias e menos seletivas?
Podemos, portanto, afirmar que a retenção é uma prática que extrapola a escola e que vem sendo abolida dos sistemas escolares democráticos. Seria realmente a reprovação uma garantia de conhecimento? Seria uma lógica democrática e inclusiva? Afinal, por que reprovar? Por que não são capazes de aprender? Na verdade não. Reprovam porque não aprendem no tempo instituído e o mais grave é que ouvimos justificativas embasadas nos ritmos de aprendizagem, valores e condutas. Devemos ao menos criar condições de aprendizagens, programas que combatam a repetência, políticas de aceleração de aprendizagem e extinguir a ideia de que o aluno é culpado pelo fracasso escolar, afinal, a escola existe para ''ensinar''.
ALINE DE PAIVA MORALES é graduada em Letras com especialização em Língua Espanhola e estudante de Pedagogia em Assis Chateaubriand


