ESPAÇO ABERTO
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segunda-feira, 16 de agosto de 2010
René Ruschel 
A Copa do Mundo de 2014 certamente será um tema obrigatório no cotidiano dos brasileiros nos próximos quatro anos. Só que desta vez o interesse não deve estar centrado apenas no trabalho da Comissão Técnica da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ou na relação dos jogadores convocados. Além do futebol, o que estará em jogo é um projeto que envolve bilhões de dólares a serem gastos com recursos públicos em obras de infraestrutura para atender as exigências da Fifa - o órgão máximo do futebol mundial.
Para se ter uma ideia da grandiosidade do evento, uma primeira avaliação dos investimentos federais e dos Estados e municípios envolvidos diretamente na organização somou US$ 14 bilhões. No entanto, se levarmos em conta a tradição verde-amarela nos negócios envolvendo governo e setores da iniciativa privada a nota fiscal pode ser bem maior.
Um estudo preliminar divulgado pela Associação Brasileira da Infraestrutura e da Indústria de Base (Abdib) já estimou a conta em US$ 57 bilhões - em Curitiba algo em torno de US$ 3,4 milhões. A julgar pelos precedentes históricos estes valores podem ser ainda maiores. Os Jogos Pan-Americanos de 2007, realizados no Rio Janeiro, estavam orçados em R$ 400 milhões, mas a conta final apresentada ao governo foi superior a R$ 4 bilhões.
Acobertado pela paixão popular, o futebol no Brasil tornou-se uma caixa preta, um negócio bilionário que nos últimos 50 anos tem sido comandado por uma dinastia familiar. Primeiro, foi João Havelange, presidente da antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e sua sucedânea, CBF, entre 1956 e 1974. Depois, presidiu a Fifa, entre 1974 e 1998. Em 1989, assumiu a presidência da CBF seu então genro, Ricardo Teixeira, que ainda permanece à frente da instituição e agora acumula a função de presidente do Comitê Organizador Local (COL), órgão responsável pela fiscalização das obras relacionadas à Copa de 2014. O Colegiado é composto por 6 pessoas. Além de Teixeira, a secretária-executiva é sua filha, Joana Havelange e o diretor-financeiro, Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central e administrador de seu patrimônio pessoal. De acordo com a revista Carta Capital o seleto grupo presta contas ''somente a Fifa e não possui nenhuma representação da sociedade civil ou do poder público''.
A Copa do Mundo não pode ser um negócio exclusivo da Fifa. O mundial de 2010, ainda segundo a revista, encheu os cofres da instituição com 3,2 bilhões de dólares e deixou para o governo da África do Sul um prejuízo de 1,1 bilhão de dólares.
No Brasil, a briga começa pela cidade de São Paulo. A CBF vetou o projeto de reformas previstas para o estádio do Morumbi e tenta convencer as autoridades paulistas a financiar um elefante branco de quase US$ 600 milhões. A pergunta é: o que fazer com uma arena de mais de 65 mil lugares desvinculada de qualquer clube? Aliás, Cuiabá e Manaus, capitais de Estados sem nenhuma tradição no futebol, devem investir juntas cerca de US$ 500 milhões na construção de seus estádios. Já existe algum projeto de uso dessas estruturas após a conclusão do campeonato mundial?
Em entrevista concedida logo após o fracasso da seleção de Dunga, Ricardo Teixeira afirmou sem meias palavras que era preciso fazer uma renovação na CBF. Poucas vezes um dirigente da entidade foi tão claro, conciso e objetivo. Só esqueceu - e os jornalistas da emissora curiosamente não questionaram - de dizer por que a mudança não começava por ele próprio, que há 21 anos comanda o futebol brasileiro.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba


