A história da Saúde pública no Brasil tem em Londrina grandes passos de seu desenvolvimento. Vanguarda na descentralização e municipalização dos serviços de saúde ainda na década de 70, o município foi um dos precursores da implantação da atenção primária em Saúde, se firmando como exemplo de integração entre instituições de ensino, serviços de saúde e comunidade, grande mobilização popular e pela construção de uma gestão pública transparente e participativa. Essas e muitas outras iniciativas marcaram o Movimento da Reforma Sanitária e foram base para as profundas transformações que levaram ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Não paramos por aí. Tecnologias inovadoras como o geoprocessamento em saúde, territorialização dos serviços de saúde e formas mais autônomas de gestão do sistema, ao lado de ações como a implantação da Saúde da Família, da internação domiciliar e da prestação de cuidado a pessoas vivendo com HIV/Aids sempre tiveram nessa terra vermelha condições favoráveis para sua consolidação, vindo a tornar Londrina modelo de inovação e construção do SUS.
No entanto, temos visto nesses últimos meses situações que retratam o quanto a Saúde no município encontra-se ameaçada. Em meio a um cenário político adverso, tem sido comum encontrar trabalhadores insatisfeitos, estratégias profundamente promissoras sendo pouco exploradas, fragilização das redes assistenciais e tantas outras coisas que se combinam em danosas consequências para a população londrinense.
Estamos vivenciando, mais uma vez, um processo de ''transição'' da direção da Secretaria de Saúde. Muitas pessoas (re)assistem descrentes este novo capítulo, mas vemos aqui uma oportunidade de mudança digna do que Londrina representa na história. Ao longo desses 30 anos de construção, o município acumula em seu quadro de profissionais pessoas qualificadas, competentes, com responsabilidade, dedicação e interesse na melhoria da vida da população.
Por que não, a exemplo do que já acontece em alguns municípios, valorizar e reconhecer o compromisso desses profissionais ''da casa'' e dar a eles a oportunidade de governar compartilhadamente o sistema local de saúde? Seria, sem dúvida, uma lição ímpar de cidadania e compromisso com a gestão pública que a atual administração poderia deixar para a população londrinense e brasileira. Mais do que isso, poderia ser esse o convite a um novo jeito de se fazer as coisas.
Londrina necessita planejar seu futuro no presente. Não podemos ficar apenas apagando pequenos e grandes incêndios. Devemos planejar de forma ousada e com intensa participação popular o futuro que queremos. Não temos que nos esquivar dos gargalos da administração pública, mas sim ter ousadia para inovar e construir. É preciso apostar na autonomia gerencial da Autarquia Municipal de Saúde, reorganizar o arcabouço jurídico-legal da saúde no município, dar continuidade à municipalização de serviços essenciais, tornar transparente e qualificar os serviços que ainda permanecerem terceirizados. As escolas formadoras precisam ser efetivamente integradas à rede, a participação popular precisa ser revitalizada e o controle social fortalecido. Os funcionários demandam valorização e, ao lado da população, devem ser considerados partícipes na construção democrática da gestão.
Tantas outras coisas precisam ser reconsideradas, rediscutidas e, até mesmo, reinventadas. Mas nessa crise atual ressaltamos a oportunidade de um primeiro passo. De uma guinada da forma de se ver e fazer as coisas, capaz de retomar os rumos da construção conjunta de uma sólida política de saúde voltada aos princípios do SUS e focada na melhoria dos serviços, principalmente na atenção básica, coerente com as necessidades de saúde da população e digna do orgulho de todo londrinense.
ALBERTO DURÁN GONZÁLEZ é doutorando em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual de Londrina e um dos coordenadores do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Núcleo Londrina)

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