ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de agosto de 2010
Derly Maciel 
Ao contrário do silêncio atordoante em ''Cálice'', de Chico Buarque, as notícias que tenho consumido nos últimos dias têm me deixado preocupado e até mesmo atordoado em alguns momentos. Inúmeras reportagens têm mostrado pessoas em situação de risco, miséria e tristeza, cujas esperanças lhes foram arrancadas sem qualquer anestésico. Crianças com má formação biológica, adolescentes escravizadas pelas pedras de crack e pais que transferem para o Estado, às vezes, sem querer, o cuidado de seus filhos.
Essa ideia de transferir para o ente público a guarda e criação dos filhos não é nova. Platão, ao escrever a ''República'', já mencionava as instituições que ensinariam às crianças o bem, fruto do senso comum de cidadãos ordeiros e responsáveis. Mas o que vemos hoje não revela a utopia do filósofo.
O Estado brasileiro tem se visto envolto ao caos em áreas estratégicas cujas soluções não podem ser tiradas de uma cartola, mas isto sim, do resultado do trabalho da sociedade como um todo. É justamente neste ponto é que fico atordoado!
Se perguntarmos para os presidenciáveis ou outro candidato qualquer se a família é importante, por certo receberemos um enfático sim. Algumas promessas seguirão como bônus. Mas a sociedade que estamos construindo está trilhando para esse fim ou, no final das contas, tudo será colocado na conta da polícia?
A legislação que está sendo elaborada tem como escopo o enfraquecimento do núcleo familiar em detrimento de ideologias. Não importa se a lei será boa ou má, o que vale é que o meu grupo saiu vencedor no embate no Legislativo.
O casamento, por exemplo, aos moldes do que se tem propalado, pode ser rescindido mais facilmente que um simples contrato de trabalho que tem um prazo de 30 dias, o qual deve ser respeitado entre as partes, o chamado aviso prévio.
A palmada pedagógica que, para nós latinos, é elemento constitutivo da própria cultura, está sendo duramente questionada. Não estamos apoiando espancamentos e lesões em nome do poder familiar (pátrio poder), mas devemos nos opor veementemente às ideias, mesmo que venham de magistrados, que as crianças devam ficar mais tempo na escola como se fossem responsabilidade exclusiva do Estado a transmissão de princípios para a vida, retirando-as do convívio familiar.
Países tidos como mais evoluídos em termos econômicos têm padecido do mesmo mal que nós e as soluções por eles encontradas não têm se mostrado mais eficientes, apenas com um aparato hightech. Vejamos o exemplo na Inglaterra, que gastou mais de US$ 700 milhões para colocar câmeras de vigilância nos lares de risco para acompanhar as tarefas escolares das crianças. Um projeto como esse tem sua validade. Mas ao contrário de soluções estruturantes em termos familiares, um projeto como esse é mais vendável politicamente. Temos a falsa impressão de que foi solucionado.
Acreditamos que os princípios que fomentam a construção de nossa sociedade, desatrelados do bom senso, possam nos levar a um niilismo para a solução de tão graves mazelas sociais, uma vez que estamos matando a galinha dos ovos de ouro: a família.
DERLY MACIEL é oficial da Polícia Militar do Paraná em Curitiba


