A sobrevivência e evolução da espécie humana sempre estiveram condicionadas à capacidade de estabelecer relações entre semelhantes e com o meio ambiente. Desde os primórdios da vida humana na terra há cerca de quatro milhões de anos, a evolução de nossa espécie se deu fundamentalmente por meio da união de esforços, da capacidade de cooperar e principalmente da solidariedade entre fortes e fracos. Os primeiros hominídeos caçavam em grupo e repartiam o resultado da caça entre todos como forma de se garantir a sobrevivência e coesão do clã. Esta forma de convivência foi o que permitiu que, mesmo diante de tamanhas adversidades e tendo que enfrentar predadores muito mais fortes, conseguíssemos perdurar e nos consolidar como espécie.
  Esta mesma lição pode ser observada no nível subatômico, em que na realidade não existem objetos, mas conexões. As relações estabelecidas entre as diferentes partículas é que formam a matéria, estabelecendo-se uma troca permanente entre tudo e todos. Somos antes de tudo caracterizados pelas relações que estabelecemos. A música é talvez a melhor metáfora da fundamental importância da percepção das conexões em vez da visão segmentada e de isolamento das partes. Cada nota quando tocada separadamente não faz o menor sentido, não apresenta harmonia e logo perde o significado, a música só acontece de fato quando se conseguem estabelecer conexões e relações harmoniosas entre as diferentes notas, resultando na melodia.
  Quando buscamos analisar a raiz dos principais problemas que afligem o nosso tempo, deparamo-nos com uma crise de percepção, em que o paradigma cartesiano predominante privilegia o isolamento das partes, a hipersegmentação o que impede a visão de conjunto, de relações e da interdependência a que todos estamos submetidos. Esta realidade conduz à irresponsabilidade já que a culpa é sempre do outro, seja ele o vizinho, o governo, outras nações, ou mesmo forças ocultas. O distanciamento em relação aos problemas sociais que atingem mais de metade da humanidade é um exemplo claro, assim como o desprezo em relação ao meio ambiente, o consumo sem limites, assim como a forma como se gerenciam as empresas, em que o lucro é o único fim e até mesmo a responsabilidade socioambiental é reduzida a artifícios mercadológicos.
  O projeto de uma sociabilidade sustentável só poderá ser construído quando houver disposição para renúncias individuais em prol do coletivo, seja ele o bairro, a cidade, o país ou o mundo. A incapacidade de pensar e agir em prol do bem comum e de uma visão de conjunto balizada nas consequências inter e intrageracionais, conduz a um processo de anomalias sistêmicas, que se manifestam no colapso ambiental ou nos confrontos sociais cada vez mais frequentes em todo o mundo, mas que sempre são vistos como problemas dos outros e por isso pouco considerados.
  A aposta contínua no atual modelo de desenvolvimento amparado na lógica produção-consumo-descarte, em ciclos cada vez mais curtos e em ilhas de prosperidade alheias às dores de boa parte da espécie humana, cria tensões e embates que ameaçam a sustentabilidade da vida na terra. A mudança não é fácil, mas certamente deve-se iniciar por uma nova forma de compreender a realidade e de se posicionar diante dela, ultrapassando o ‘‘eu’’ avançando para o ‘‘nós’’, do egoísmo para a cooperação, da visão competitiva individualista de darwinismo social, para uma visão de bem comum.
  É hora de acordos, diálogos, parcerias, projetos conjuntos em vez do monopólio da competição e da exploração dos mais fortes. Ou conseguimos criar um modelo de convivência em que todos possam ter vez e que os projetos coletivos se sobreponham aos individuais ou estaremos condenados a um processo de involução que logo nos levará a disputar as poucas cavernas que restarem.

LUIS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é doutor em Ciências Sociais e professor do departamento de Administração da Universidade Estadual de Londrina

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