Ao assumir o desafio de ser presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência de Londrina, tenho tentado trazer à ordem do dia a discussão de dois conceitos: a inclusão e a vida independente das pessoas com deficiência.
Não se pode falar de inclusão sem vida independente e muito menos de vida independente sem inclusão, pois uma depende da outra. Não adianta nada a inclusão acontecer, se as pessoas com deficiência não tiverem vida independente, ou seja, condições de viver como qualquer outro ser humano, em sua totalidade, para estudar, trabalhar, namorar, etc. Assim como é impossível tudo isso, sem as condições necessárias para que tal independência aconteça, ou seja, que a sociedade nos aceite como parte da diversidade humana e que o Estado, enquanto ''provedor'' de nossas vidas, nos dê condições de viver em pé de igualdade com as demais pessoas.
Em teoria, ou pelo menos juridicamente, no que tange a viver em pé de igualdade com as demais pessoas, acredito que se avançou muito a situação das pessoas com deficiência. Mas ainda há muito que se avançar no que diz respeito à sociedade em nos aceitar como iguais.
Ainda somos vistos como ''coitadinhos'' ou meramente como incapazes de qualquer ato, mas ao mesmo tempo somos condenados por qualquer postura mais radical que por ventura tomamos em nossas vidas. Recentemente ao ver um espetáculo de um grupo de teatro chamado ''Expressividade cênica'', formado inteiramente por integrantes cegos e que seus integrantes são companheiros de militância de longa data da causa da pessoa com deficiência, pude perceber que estou certo em colocar tais conceitos em discussão.
A peça se chamava ''Olhares guardados'' e foi inspirada em textos do sociólogo, escritor e também integrante do grupo Sebastião Narciso e na história do fotógrafo esloveno cego Eugenie Buchan. Dirigida pelo diretor, ator e produtor cultural londrinense Paulo Braz, a peça tem montado um esquema de cenário, iluminação, som e, principalmente, textos com o objetivo de facilitar a movimentação dos atores. E o objetivo maior da peça é mostrar como é possível que pessoas com deficiência possam exercer qualquer tipo de atividade, seja ela, cultural ou não.
Citei o exemplo dessa peça, pois já escrevi em outro artigo a respeito dos rótulos que nós - pessoas com deficiência - temos, inculcados pelo resto da sociedade, mas chego à conclusão de que é possível um diálogo e que é necessário que se inverta a ordem das coisas: não é a pessoa com deficiência que deve ser incluída pela sociedade, pois tal inclusão já vem acontecendo pelo menos teoricamente, seja por leis, por interferência de alguns grupos de (e para) pessoas com deficiência ou mesmo pela boa vontade do Estado. É necessário que a sociedade se inclua no universo das pessoas com deficiência, pois não há inclusão sem interação entre as partes.
Assim sendo, será possível que a inclusão da pessoa com deficiência se torne mais fácil para que ela se torne aceita enquanto sujeito de direitos e deveres e, consequentemente, tal inclusão lhe torne mais fácil uma vida independente.
ALMIR ESCATAMBULO é presidente do Conselho Municipal dos direitos da Pessoa com deficiência de Londrina

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