ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Jair Queiroz 
A tragédia pessoal nas vidas da jovem Eliza Samudio e do ex-goleiro do Flamengo Bruno Fernandes, conforme exposta pela mídia nos últimos dias, nos dá uma pista para entendermos melhor os contornos do fatídico encontro que começou a ser desenhado muito antes do primeiro flerte entre os dois.
Ambos vitimados pela desagregação familiar foram condenados ao vazio existencial, ao recolhimento e à dor profunda e invisível que embota o afeto, que obnubila a consciência, que aniquila a autoestima e a formação do caráter. A separação dos pais é, na maioria dos casos, um momento extremamente traumático para a criança e lhe subtrai a energia de vida ao romper o mais importante elo na formação da estrutura psicológica. O luto que segue nem sempre se conclui, ou seja, uma ferida fica aberta para sempre.
A gravidade aumenta quando essa ruptura é precedida e/ou sucedida por ofensas, calúnias, violência física, verbal ou psicológica, de um ou ambos os lados ou ainda quando os envolvidos recorrem à chantagem emocional em que os filhos são ''usados'' para desacreditar e desmoralizar a outra parte. Esse comportamento produz sentimentos de culpa, como se fossem eles os responsáveis pelo fracasso do relacionamento dos pais.
As vítimas de cisão tão intensa tendem a ficar fixadas no ponto da ruptura, embora o fato em si lhes seja negado à razão, mas lutam contra os registros inconscientes que dele provém e que os faz repetir involuntariamente a própria história, num eterno regredir ao ponto do conflito original. Essa luta interna gera tensões e sensações impossíveis de serem suportadas sem o apoio psicológico adequado o que infelizmente é raro acontecer. Drogas, compulsões, perversões, crueldade, são o lado manifesto dessa falência da psique e é a parte percebida e condenada pela moral social e pela justiça.
Podemos inferir no caso analisado, que tanto um quanto o outro, pela vida desregrada que levavam, buscavam, de forma neurótica, resgatar os vínculos afetivos perdidos na infância. Nesse perfil patológico as demandas internas não encontram consonância na realidade social e os comportamentos reverberantes são respostas à impossibilidade de diálogo racional para amenizar a sensação de vazio.
Eliza, no afã de nutrir sua carência de afeto passivo, colocou-se neuroticamente no caminho de um pseudoforte, na verdade um fracassado emocional, que usava a truculência e o poder que o dinheiro lhe proporcionava, como antídoto para suas mazelas afetivas. A imagem do homem forte, do atleta brilhante é apenas a metamorfose necessária para resistir à derrocada pessoal.
A ''mãe Eliza'' reacendeu em Bruno os medos infantis do abandono e as mágoas advindas da negação do afeto por parte da sua própria mãe, de quem, no seu constructo caótico, introjetara uma imagem ambígua, como aquela que ama, mas que trai, que concebe, mas abandona, que amamenta, mas despreza. Essa mãe, ou melhor, a representação simbólica dela, deve ser eliminada, como se assim fossem eliminados todos os seus sentimentos ambivalentes de amor e ódio.
Nessa trama arquitetada no trato oculto da mente o alvo é indefinido, a forma também, mas um dia os caminhos daquele que nutre o desejo inconsciente de vingança se cruzam com os caminhos de alguém que alimenta um desejo oposto, o da autodestruição.
Para Eliza Samudio, enfim, cessaram as buscas pelas respostas ao vazio da sua existência, vazio que determinou seu trágico fim. Bruno, que o vilipêndio familiar condenou à prisão perpétua na cela das dúvidas e das culpas, nunca encontrará alento para as dores que o consumiram, que o consomem e o consumirão para sempre. Perante a lei, se provado, será um assassino.
JAIR QUEIROZ é psicólogo clínico com foco em tratamento de dependente em Londrina


