A meta do Conselho Monetário Nacional de 4,5% de inflação para 2011 é bem ajustada para o Brasil. Do meu ponto de vista é satisfatória. Hoje, a maioria das pessoas se convenceu que aquela ideia de trazer a meta para 2% acaba com a possibilidade de fazer uma política monetária decente. Então, a meta de 4,5% de inflação anual é bastante razoável. O preço dos alimentos caiu e está ajudando a manter a inflação baixa, embora o Banco Central acredite que é por sua causa.
O que resta discutir é a insistência com que se sustenta a ideia que a taxa de juro de equilíbrio na economia brasileira é de 7%, quando no resto do mundo (com a exceção de mais três ou quatro ''panacas'' como nós) é de 3% ao ano, ou menos.
O Banco Central abraçou uma crença, erigida com base em estatísticas de origem muito duvidosa (e por métodos também extremamente duvidosos) segundo a qual o ''PIB potencial'' do Brasil é entre 3,5% e 4% e que a taxa de juro real que mantém a economia funcionando nesse nível, sem pressão inflacionária, é 7%.
Se a sociedade aceita esses dois parâmetros usados nos modelos do Banco Central, então não adianta brigar com ele. Seus porta-vozes, ''porta-e.mails'' (na verdade portam-tudo), tornam público que não há que duvidar dos parâmetros por que seus modelos recomendam aumentar a taxa de juros nominal de tantos por cento para manter a taxa de inflação em torno da meta. O Banco Central ganha credibilidade enfrentando exatamente as críticas de dentro do próprio governo.
Durante o debate da segunda-feira no Jornal Gente, da BAND, nosso companheiro de mesa Joelmir Betting disse uma coisa muito interessante a propósito desses parâmetros: não são estimativas, mas na realidade uma verdadeira torcida. Faço aqui um parêntese para explicar - para quem ainda não sabia - que além de profundo e atualizado conhecedor dos problemas de nossa economia, Joelmir entende de futebol e desse negócio de torcida: só ele e o polvo do aquário alemão apontaram os vencedores das semifinais da Copa, sendo que o nosso companheiro da BAND cravou Espanha, uma semana antes da final. Mais um ''gol de placa''...
A realidade, infelizmente, é que as tais estimativas não passam de uma grande torcida, da qual se extraem lucros fabulosos. Basta perguntar o seguinte: quantos informantes do setor produtivo da economia participam das pesquisas? Setor produtivo, para mim, é o fabricante de parafuso, de prego, de máquina, de sapato, de panela...
Não conheço nenhum que tenha sido ouvido na formação dos cálculos do Focus. Somente são ouvidos os agentes do sistema financeiro, os analistas de bancos. Eles têm interesse no resultado das estimativas e por aí se guiam, contribuindo para o grande equívoco: organiza-se uma torcida enorme pela elevação dos juros.
Quando surge alguma divergência entre as equipes do Ministério da Fazenda e do Banco Central, como recentemente veio a público, os analistas se divertem porque o setor financeiro vive da instabilidade, da volatilidade: quanto mais volatilidade, mais oportunidades de ganhar dinheiro (ou perder, se quisermos ser justos com eles), mas em geral quem perde de verdade é o setor produtivo, a indústria, a agricultura, até os serviços e obviamente a mão de obra que depende da produção.
ANTONIO DELFIM NETTO é professor emérito da FEA/USP e ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

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