ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de julho de 2010
Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy 
O presidente Lula sancionou a Lei nº 12.265, de 16 de junho de 2010, que promoveu post mortem o diplomata Vinicius de Moraes a ministro de Primeira Classe da Carreira de Diplomata. Assegura-se aos atuais dependentes de Vinicius os benefícios de pensão correspondentes ao cargo para o qual se fez a promoção.
Vinicius entrou para a carreira diplomática em 1943, sendo exonerado do Itamaraty em 1969. Atingido pelo Ato Institucional nº 5, conta-se que no dia da notícia - o poetinha estava em Portugal - salazaristas portugueses tentaram atingi-lo com bravatas. Vinicius enfrentou os agitadores.
Há notícias de que em 1979 o presidente Lula teria convidado Vinicius para leitura de poemas no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Fato ou versão, não importa, 40 anos depois, anfitrião e convidado se reencontram de modo inesperado. O convidado que leu os poemas no sindicato já não mais está entre nós. Morreu em 9 de julho de 1980, de edema pulmonar, no Rio de Janeiro. Legou-nos uma obra poética inigualável. É o poeta da paixão. Cantou os perigos desta vida, para quem tem paixão principalmente.
Vinicius de Moraes substancializou a carreira diplomática naquilo que a nobre atividade tem de mais marcante: a sensibilidade. A dissociação entre diplomata e poeta é mero acidente de interpretação, típico de quem apenas encontra na burocracia a disposição para a afeição ao carimbo, à forma, à mesmice. Não que a inusitada aproximação entre ofício e arte transforme o homenageado no campeão das causas diplomáticas. Menos.
E Vinicius também simboliza o diplomata na inteligência, na multiplicação de interesses culturais, no gosto pela generalidade, no rigor com a verticalidade naquilo que se faz, no amor e no apego para com a existência. Construiu asas. Não se conformou com raízes. Diplomata, poeta, compositor, jornalista, crítico de arte, estudioso da cultura, Vinícius era um polímato. A sua produção intelectual é um patrimônio nacional. A sua sensibilidade, incomensurável, um referencial universal. A integridade para com as causas que defendia, entre elas a mais altaneira de todas, o amor, é o símbolo de uma existência concomitantemente irrequieta e tranquila, se é que esta aproximação seja possível.
A luz dos olhos de Vinicius recorrentemente precisava se casar. E se casaria tantas vezes quanto necessário fosse, na blague atribuída a uma resposta que Vinicius dera a Tom Jobim. O poeta anunciou no Soneto da Fidelidade uma nova concepção de tempo, conformando-nos com a mortalidade, mas tornando a existência infinita, enquanto durasse o viver, que é longo, se bem vivido, ainda que o seja por um instante finito. Vinicius invertia e subvertia o andar das horas: poetou que de manhã escurecia, de tarde anoitecia e de noite ardia.
Poeta em estado natural, na lembrança de Drummond, Vinicius inquietava-se com o mistério da morte, que sublimava na paixão da vida. Católico na origem (fez a primeira comunhão em 1923), Vinicius aproximou o sentido soteriológico de todas as religiões na comunhão absoluta no amor pela vida. Seu catecismo era a perseguição do sublime.
A lei sancionada pelo presidente Lula provoca em todos nós a lembrança de um excerto de Vinicius para quem, depois de tantas retaliações, tanto perigo, eis que ressurgiria no outro o velho amigo, nunca perdido, sempre reencontrado.
Comprova-se, definitivamente, que depois de idas e vindas, triunfam o ardor, a persistência e a paixão de todos quantos enfrentamos e vivemos intensamente os perigos desta vida.
ARNALDO SAMPAIO DE MORAES GODOY é consultor da União e professor do programa de Mestrado em Direito da Universidade Católica de Brasília
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