ESPAÇO ABERTO
A força das paixões
Dom Orlando Brandes
O amor humano tem graus: desejo, prazer, atração, paixão, enamoramento, amor. A paixão é um grau necessário, natural e sadio do amor. É a força do eros que impulsiona o afeto, mas que não é ainda amor maduro. Tem alta dose de autossatisfação, exclusivismo, apego e posse. Confundir paixão e amor é muito fácil.
No caso de fixação no nível da paixão, o ser humano torna-se alguém ''ferido de amor''. É um sofrimento misturado de amor e ódio, atração e medo, desejo e afastamento. Descreve-se a fixação na paixão como fogo devorador, vulcão interior, ferida incurável, correnteza arrasadora.
A paixão endeusa o outro, porém, se não houver correspondência, vem o desprezo, o rebaixamento, a vingança até a agressão e morte. A paixão está ainda muito influenciada pelo amor de si mesmo, quando o processo normal é desabrochar no amor do outro e pelo outro.
A paixão nos deixa agitados, inquietos, nervosos, fixados e até cegos. Tem altos e baixos. É um fervedouro de prazeres, emoções e ilusões. Tem grande poder de sedução, mas o vazio, a divisão interior, a voracidade afetiva faz sofrer.
Tudo isso por conta das carências pessoais e do apego. A paixão tem sabor de liberdade, mas na realidade é uma corrente que nos amarra, um fardo pesado. Aparecem as invejas, ciúmes, temores, ódios. A gente se torna uma morada inabitável.
A carne não basta para saciar nossa sede de amor. A samaritana (Jo 4) teve seis maridos. Só no encontro com Jesus é que sua vida mudou. A sede infinita de amor só o infinito pode saciar.
Os apaixonados são capazes de recorrer à superstição e magia para encontrar explicação e até a manutenção de seu caso amoroso e, por outro lado, aparecem os disparates provocados pelo fascínio, pelo êxtase, pela sensação de plenitude.
Uma paixão que não é curada e que não se desenvolve em amor, pode levar-nos para a desordem afetiva, para o fundo do poço. Não podemos brincar com nossos afetos, emoções e sentimentos. Estamos enfermos de amor. Precisamos da família, do afeto, da oração, do sentido da vida.
Educar para o amor, é educar a afetividade, que não é explicação do funcionamento glandular, nem apenas da fisiologia genital, muito menos distribuição de preservativos. O coração é mais que o corpo.
O encontro sexual é um encontro de corações, de almas, de consciências, de destinos. É lamentável ouvir falas de determinadas escolas de psicologia dogmatizando o sexo livre nas televisões, para idosos, crianças e adolescentes.
Esquecemos que a castidade é humanizadora. A distribuição de preservativos, sem maiores preocupações com a educação para o amor, para os limites e valores, preserva a saúde, mas incentiva a imoralidade.
As manchetes destes dias anunciaram que 937 municípios brasileiros têm exploração sexual de crianças e adolescentes, a prostituição infantil. Nossa fome e sede é de amor, de valores, de sentido, de Deus. Precisamos do colo, do reconhecimento, do elogio.
O melhor presente que os pais podem dar aos filhos é o amor conjugal e quem descobre o amor de Deus ordena suas paixões desordenadas. O amor ordena as paixões, constrói a família, edifica a sociedade, prepara a eternidade.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
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