ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Reginaldo José da Silva 
Poderia tratar-se de um conflito na região dos rios Tigre e Eufrates na Ásia ou de disputa entre México e Estados Unidos pelas águas do Colorado. Não seria estranho se fossem as águas do Nilo (entre Egito, Etiópia e Sudão) ou entre Israel e Palestina. Seria ''normal'' no semiárido nordestino brasileiro ou em qualquer dos 48 milhões de quilômetros quadrados de terras áridas ou semiáridas do planeta - 33% da superfície continental. Mas quem diria? Trata-se de Ibiporã.
A reportagem ''Disputa por água em Ibiporã'' (Folha Cidades, pág. 3, 11/06) é uma fonte para reflexão. Quando a senhora Lourdes Pereira afirma que ''com as ligações clandestinas temos ficado sem água para as plantações, para os animais e para o consumo de nossas famílias'', fica claro o conflito. Chácaras para subsistência passam a competir com ligações irregulares de água para lazer e para atividade granjeira. O conflito ocorre em área daquele que já fora considerado o maior aquífero do planeta, cujas águas abasteceriam o Brasil por mais de 2500 anos. É bem verdade que o imaginário popular se engana ao visualizar essas áreas como imensos mares subterrâneos de água doce. Hoje se sabe que o aquífero Guarani não é uma área contínua e possui regiões com alta salinidade. A população mundial aumenta ao ritmo de 210 mil novos habitantes por dia. A cada dia temos mais gente e menos água. A quantidade é a mesma, porém poluição e contaminação reduzem o volume de água disponível para uso.
Noutro ponto da reportagem a reclamante, em palavras simples, aponta o caminho certo: melhor gestão dos recursos hídricos! Esta deve ser integrada. Deve, não apenas porque a Lei de Recursos Hídricos determina considerar aspectos sociais, econômicos, ambientais, o uso da terra, as necessidades locais e a participação das comunidades locais na tomada de decisões. A água é um direito fundamental do ser humano. Negar o seu acesso é negar o direito à vida. Talvez, o grande erro humano seja crer cegamente no poder do dinheiro e da tecnologia para a resolução de problemas. Qualquer política de sustentabilidade que os coloque acima dos valores humanos está fadada ao fracasso. Isso porque esquece que há algo mais importante. A ética, a solidariedade e as pessoas ainda são mais importantes.
A agricultura consome quase 70% de toda a água utilizada. A indústria outros 20%. O uso doméstico consome 10%. Deste último deve partir o exemplo, porque o mercado econômico, embora conservador, está sempre muito atento ao comportamento das pessoas. O futuro da água volta-se para a pequena escala, a irrigação por gotejamento (e não por aspersão), preservação dos recursos hídricos e ambientais locais. Redução do desperdício, que é de 40% antes de chegar às residências, distribuição equitativa, pequenas represas e não os empreendimentos gigantes de outrora, reuso da água, melhor eficiência e aproveitamento - o aproveitamento anual da água de um telhado de 100 m2 pode atender as necessidades básicas de uma família com quatro pessoas por mais de cinco meses.
Os métodos das ciências econômicas são importantes, mas é urgente uma efetiva mudança para a economia ambiental. Se você come um frango todo dia e eu nunca como um grama sequer de frango, para a Economia, nós dois juntos comemos meio frango todo dia. A chuva repõe o equivalente a 7.000 ml de água para cada pessoa por ano, são sete milhões de litros de água. Porém, não há lei, não há tecnologia nem Guarani que possa garantir sua parcela, nem mesmo no país da maior bacia hidrográfica do planeta. Para formar um quilograma de frango consomem-se 3.500 litros de água. Há muita gente querendo trocar o meio frango - que não possui - por um copo de água. Algum granjeiro interessado?
REGINALDO JOSÉ DA SILVA é biólogo pós-graduado em Análise Ambiental e Policial Militar em Londrina


