Domingo ensolarado. Manhã preguiçosa. De repente uma aglomeração. Que será aquilo? Comemoração? Acidente? Ao me aproximar um pouco mais: gente de toda idade, do bebê ao vovô. As crianças observam curiosas: adultos com papéis na mão, cheios de números escritos e outros já riscados, parecem dados importantíssimos. O semblante dos nobres senhores (e senhoras, também) é sério. Pelo visto grandes negócios estão sendo discutidos e, certamente, decidirão demandas sérias da humanidade.
De repente alguém grita: ''Você tem o 35?''. Outro retruca: ''Conseguiu o 541?''. Mais ao longe: ''Foi difícil essa! Só faltam 120''. Acolá: ''Como assim? Todas? Já completou?''. O amigo, feliz e invejoso, desabafa: ''Pô meu, que legal, também quero! Não vejo a hora''. E assim, a pequena multidão vai curtindo a manhã ensolarada. Entremeio às motos, carrinhos de bebê, cachorros, a bandinha de músicos palhaços tocava e anunciava a peça cobiçada em negociação.
Quando os adultos conseguiam algum sucesso no ''negócio'', mostravam ao seu assessor, que muitas vezes era quem portava a planilha e ia dando baixa nas questões ou mercadorias que ainda careciam de negociação ou sucesso. O mais interessante é que o papel de segurar a planilha, geralmente ficava a cargo de uma criança, algumas até com chupeta na boca de tão pequenas que eram.
Fiquei intrigada, tentando descobrir qual motivo do grande evento que rolava ali, na pracinha do Mercado Shangri-lá. Enfim, a cena foi clareando: figurinhas, álbum, jogadores do mundo inteiro, apenas umas seiscentas e poucas estampas para completar o grande negócio!
Desde que me entendo por gente as crianças fazem coleções de pedras, conchinhas, papel de carta, figurinha de qualquer coisa (dependendo da moda vigente). Pois é, a grande diferença é que agora: quem troca as figurinhas são pais, avós e tios deixando às crianças a nobre função de acompanhá-los e, quando muito, riscar os números das figurinhas obtidas. Aliás, por vezes, levam broncas severas por ''tirar da ordem'' as figuras organizadas previamente pelos adultos.
Estimular o gosto pelo esporte mais amado do país, conhecer os ídolos do passado, do presente e, quiçá, do futuro, faz parte. Afinal é Copa do Mundo, nossos meninos podem até conquistar o hexa. No entanto, estão privando as crianças do prazer de abrir cada pacote, de trocar e/ou negociar com os seus próprios amigos as figurinhas mais cobiçadas. Impedem, também, de enfrentar a frustração por não ter encontrado a última figurinha (da página, do time ou do álbum) e assim entender a necessidade de aprender a esperar para depois, então, curtir o sabor da conquista obtida a duras penas com o seu próprio labor. Afinal, saber negociar é uma arte que se aprende não nasce com a gente.
Enquanto participava de uma aula de ginástica, ouço uma conversa já conhecida: ''Seu filho conseguiu?''. E uma senhora responde: ''Ah, sim, mandei uma mensagem no site tal, paguei tanto e recebi tantas figurinhas''. Aí vem a pergunta: tradição ou regressão?
Que ironia, ao invés de transmitir as tradições, os adultos estão usando as crianças para mascarar o desejo de voltar à infância e retomar o contato com seus grandes ídolos e parceiros das fantasias de outrora. Apesar de tudo, vale a diversão. Afinal, é domingo. Talvez, para alguns pequenos, pode ser a única maneira de curtir um dia em família, nem que seja cuidando da planilha para que papai e mamãe brinquem: trocando figurinhas de gente grande.
MARIA ELIZABETH BARRETO DE PINHO TAVARES é doutora em Psicologia e psicóloga em Londrina

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