ESPAÇO ABERTO
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terça-feira, 01 de junho de 2010
Agnaldo Kupper 
Teoricamente, a doutrina anarquista fundamentou-se e estrutura-se em pensadores como William Godwin, Proudhon e Tolstói. Segundo os anarquistas, as tradições desta ideologia remonta de tempos ainda mais longínquos, passando pelo sábio chinês Lao Tsé, pelos gregos hedonistas e cínicos e por uma variedade de seitas ocidentais anteriores à Reforma Religiosa do século XVI. Tais vínculos tornam-se defensáveis, desde que se considere as principais reivindicações anarquistas: liberdade diante de qualquer autoridade e igualdade para todos os seres humanos.
Observado sob esta perspectiva, futebol e anarquismo andam juntos. Afinal, é fácil aprendê-lo. É improviso puro. Joga-se em qualquer pedaço de campo ou de rua, o piso pode ser irregular, a delimitação das metas pode ser feita com dois pares de chinelos, a tática pode ser desprezada, usa-se a quantidade de jogadores disponível, o tempo é livre (quem sabe um ''três vira, seis acaba''), qualquer par mais atrasado pode ser agregado ao jogo, o goleiro pode ser ''linha'', pode prevalecer o apito de consenso e até a bola pode ser adaptada. Talvez, chamemos o maior torneio de futebol do mundo de ''Copa'' exatamente porque fica perto da cozinha, onde o bom papo flui e onde reside a boa bagunça.
Quando temos notícia das brigas entre torcedores de clubes de futebol rivais, ou que fanáticos torcedores procuraram agredir atletas que não corresponderam às expectativas nos times que defendem, ou que trens foram destruídos após uma partida de bola, questionamos: por que o povo brasileiro parece ter sido educado para achar que seus problemas resumem-se ao futebol? Talvez, a pergunta melhor seja: por que o futebol traz revolta e o desemprego, a violência, a fome, a opressão, nem tanto? Difícil responder. O fato é que sofremos mais com um revés do time do coração do que com os milhões de pessoas que chafurdam na miséria.
O futebol é tão apaixonante que vem antes de muita coisa. Talvez, até mesmo da paixão. A bandeira do clube de futebol, por exemplo, é colocada em espaço especial sobre um caixão, seguida, em ordem normal, pelas bandeiras da escola de samba, do partido político e, caso sobre espaço, de uma que represente a pátria ou o Estado do defunto. A paixão pode ser tola, mas é gostoso tê-la.
O surgimento de tantos times de futebol no Brasil têm data: primeiro quartel do século XX. Até então este esporte era quase que exclusivamente praticado pelas camadas mais favorecidas da sociedade. Teve uma poderosa expressão entre os setores marginalizados e mais pobres, em uma disseminação impressionante. E há, possivelmente, uma ligação com a doutrina anarquista, já que a mesma norteava as ações políticas da maioria dos sindicatos dos trabalhadores em grandes centros, em especial São Paulo e Rio de Janeiro.
Não creio que a prática fubebolística tenha sido incentivada para dar ao trabalhador um sentido disciplinar. Teria sido o futebol enraizado entre operários para que os mesmos pudessem jogar aos domingos e discutirem os lances nas segundas e terças, preparando-se para o próximo embate na quarta, quinta, talvez sexta-feira, chegando ao ápice da expectativa no sábado? Se assim, pobre luta trabalhista: trocada por uma bola!
Anarquistas e comunistas, a princípio, não viam com bons olhos a proliferação deste esporte, torcendo o nariz para a sua popularização. Com o tempo, entregaram-se às pelejas. Talvez, para atrair os trabalhadores para as reuniões sindicais. A bola venceu e convenceu a todos. E segue convencendo.
Vale tudo, só não vale usar o futebol - como histórica e normalmente se faz - para se elevar um governo. Afinal, o futebol não pode ser usado por quem administra o Estado. Por uma única razão: é anárquico.
AGNALDO KUPPER é professor de História em Londrina


