A revista norte-americana ''Time'' elegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva um dos homens mais importantes do mundo. Não se preocupem pois Nero, aquele imperador que colocou fogo em Roma, também já foi o homem mais importante do mundo. Dentro dos percalços do dia a dia que está sempre a nos perguntar: e agora, o que mais vem por aí?
Se o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, chamou Lula de ''o cara'', como ele chamaria algum outro brasileiro que viaja duas horas para chegar ao trabalho, mais duas para voltar, recebe dois salários por mês, cuida de mulher e dois filhos, trabalhando 40 horas por semana? O ''supercara'', o presidente americano antes de falar sobre o Brasil que ele não conhece, deveria ficar três dias na fila do Sistema Único de Saúde (SUS), ser agredido por alunos em uma escola de periferia que aos 14 anos usam crack e traficam armas. Ou este emérito de Harvard poderia ainda presenciar uma troca de balas entre quadrilhas nas grandes cidades.
Lembro-me das primeiras lições de Filosofia quando ouvi que para o taoísmo a felicidade suprema é aquilo a que dão o nome de fazer nada. Na época achei loucura, mas hoje vejo que agindo assim qualquer um poderia ser ''o cara''.
As histórias que nos contavam na infância - a Branca de Neve foi mandada ser morta pela madrasta, João e Maria foram abandonados na floresta - eram imaginárias. Mas no Brasil essas coisas acontecem porque na verdade vivemos na Terra do Nunca sem Peter Pan, porém abundam capitães Gancho. Os deuses do Olimpo mostram que a separação vem da compreensão e no Brasil aprendemos que para sobreviver e seguir em frente, é melhor não entender nada.
Na primeira revolução francesa vimos mudança nítida e profunda. Derrubou-se a Bastilha, decapitou-se Maria Antonieta e instalou-se a saga. Todos sabiam por que as coisas aconteciam e por que rolavam as cabeças.
O grande poeta Rainer Rilke, em um dos trechos de seu epitáfio, escreveu: ''A volúpia de ser ninguém''. No Brasil, ser ninguém é mérito, santifica e eleva, promove e elege.
A plenitude do governo federal atual quando apareceu, durou pouco e junto aconteceu o nascimento da tragédia no Brasil e que ao acabar de nascer já estava decadente. Decadente antes de começar. Todo o ímpeto inicial se foi, se corrompeu, os protagonistas manipulam, não cumprem, execram.
É fato que ''o cara'' não conseguiu cumprir promessas, foi conivente ao fingir não ver os grandes abusos e desvios feitos por meio de artimanhas, a saúde continua desastrosa, a educação sem comentários. O que funciona é a maior compra descarada de votos do mundo, por meio de bolsas para o possível e para o impossível, tudo com o dinheiro público.
Como serão os outros que pegaram os primeiros lugares? Lembrem-se, está escrito: ''Os primeiros serão os últimos''.
Não podemos continuar agindo como relojoeiros cegos. Deveríamos ser como advogados assertivos da nação. O bom senso é uma dádiva, a inteligência é uma aquisição. A vontade de melhorar nos alivia das vicissitudes da vida, ativando o nosso senso de proporção e nos mostra que a atitude de ser honesto nos faz enxergar o absurdo que acontece agora em nossa volta. Não podemos ter medo da discórdia honesta porque ela é um bom sinal de progresso.
Uma vez, o presidente americano Roosevelt disse: ''Convém a cada homem lembrar que o trabalho crítico, é de importância completamente secundária e que, no final, o progresso é realizado pelo homem que faz as coisas''. Pergunto, então, quem anda fazendo as coisas por aqui?
NELIO ROBERTO DOS REIS é doutor em Ciências e professor na Universidade Estadual de Londrina

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