ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de maio de 2010
José Miguel Arias Neto 
O recente acordo entre Brasil, Turquia e Irã, como apontam diversos analistas sérios, representou um avanço na discussão da questão nuclear. Brasil e Turquia conseguiram pela diplomacia o que Estados Unidos (EUA) e União Europeia não foram capazes de fazer. Pois bem, resta saber por que, um dia após o anúncio do acordo, sem mesmo terem conhecimento do mesmo, sem refletir sobre o seu conteúdo, os EUA fecharam outro ''acordo'' sobre novas sanções ao Irã. A questão da energia nuclear se dá em um mundo de relações assimétricas. O próprio tratado de não proliferação nuclear deriva da guerra fria. Assim o sistema internacional se pauta por vários pesos e várias medidas.
Em primeiro lugar, não se pode dizer que os EUA tenham estatura moral que lhe permita ditar regras aos demais. Não é de fato, uma potência confiável. O que vale para os outros não vale para os EUA. Foi o primeiro país a empregar a bomba atômica sobre populações civis para pressionar os russos. Os ataques a Hiroshima e Nagazaki não puseram fim à II Guerra Mundial, mas deram início à guerra fria e ao terror nuclear.
Até hoje, também, os EUA não forneceram uma resposta convincente sobre as acusações de emprego da tortura em Guantánamo. Não se comprovou que o Iraque possuía armas de destruição em massa. Igualmente escandalosa é a omissão dos EUA e do governo Obama em relação ao verdadeiro holocausto da população civil palestina promovida pelo Estado de Israel que, segundo as últimas notícias, colocou à disposição do regime do Apartheid da África do Sul, armas convencionais, químicas e nucleares.
Se as eleições no Irã são questionadas, por outro lado, o caso de Honduras, demonstra muito bem o fato de que os EUA pouco estão se importando para o que se passa na casa alheia quando o ''ditador'' de plantão é alinhado aos seus interesses. O ponto nevrálgico da questão se resume a uma questão da ''realpolitik'': trata-se de poder, influência, capital.
É isto que incomoda os governos dos EUA, uma potência convencida - talvez esteja incorporada ao DNA estadunidense a ficção bem formulada no século XIX do destino manifesto - de que foi escolhida por Deus para dominar o mundo. Esta formulação fez os EUA autonomearem-se polícia do mundo no XX. Com o fim dos regimes totalitários do leste europeu, os EUA ficaram sem um inimigo declarado que justificasse a ampliação de gastos militares, intervenções ao redor do mundo, etc.
O fato é que a concepção estadunidense de mundo é mais adequada a um universo em preto e branco - do cowboy contra os bandidos. Em um mundo de colorida multipolaridade os EUA perdem mercados, influência e acabam por criar permanentemente ''um inimigo a ser combatido'' de modo a sempre tentar recriar aquele universo.
As questões externas dizem também sempre respeito aos problemas internos e, a insistência dos EUA nas ''sanções ao Irã'' tem o efeito de consumo interno, isto é, no presente momento, de desviar a atenção dos graves problemas enfrentados pela administração Obama. Neste sentido, o Irã se parece com as Malvinas e Barack Obama e Hillary Clinton com o general Galtieri. O mundo multipolar tem demonstrado que a política externa da maior potência do globo sempre foi uma farsa no que diz respeito à ampliação da democracia e nada diferente de uma autêntica republiqueta das bananas ou dos hambúrgueres. Do ponto de vista da civilização, os EUA não estão do lado da vida e do bem-estar dos habitantes do planeta.
JOSÉ MIGUEL ARIAS NETO é professor de História Contemporânea na Universidade Estadual de Londrina e pesquisador associado ao Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp


