Até recentemente, na maioria das cidades brasileiras, o gerenciamento de resíduos baseava-se num sistema bastante simples: o poder público recolhia o lixo dos moradores em um grande caminhão compactador e jogava tudo em um buraco, os famosos lixões ou aterros maquiados, também conhecidos como ''aterros controlados''. Isto aconteceu durante todo o século XX. Agora, já conhecemos o desastroso resultado ambiental provocado por esta prática rudimentar: poluição do solo e de nossos corpos hídricos, além do enorme desperdício de insumos naturais quando enterramos resíduos recicláveis.
Feito o ''mea culpa'', constatamos que a única saída é o investimento na reciclagem e reaproveitamento de resíduos. Para isso, o primeiro passo é fazer a segregação dos três tipos de resíduos na origem: orgânicos (restos de comida), recicláveis e rejeitos (basicamente os resíduos de banheiro).
A separação - em residências e empresas - no momento da geração faz-se necessária para viabilizar o reaproveitamento. Se a segregação for eficiente, os orgânicos podem ser transformados em adubo por meio do processo de compostagem, os recicláveis retornam à cadeia produtiva para virar novos produtos e o rejeito, este sim, deve ir para uma vala impermeabilizada, já que ainda não existe tecnologia disponível para reciclá-lo.
Trata-se de um sistema moderno de gerenciamento de resíduos capaz de reduzir em até 80% o volume de lixo depositado em aterro e, ao mesmo tempo, aliviar a demanda pela extração de recursos naturais, já que garante o reaproveitamento de matéria-prima que já está circulando na sociedade.
Cada família brasileira, com quatro pessoas, produz, em média, 3,2 quilos de lixo por dia - o que perfaz aproximadamente 160 mil toneladas em todo o País. Deste total, 50% correspondem aos orgânicos, e 30% aos recicláveis. Portanto, com a separação correta podemos reduzir a 20% os resíduos que ainda podemos considerar lixo.
Se os resíduos, porém, forem misturados no mesmo saco, fica praticamente impossível separá-los posteriormente, e o material passível de reaproveitamento acabará sendo destinado ao aterro. O desperdício de recicláveis representa um prejuízo de quase R$ 5 bilhões por ano no Brasil, de acordo com a ONG Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre).
Para implantar esse sistema, também é necessário que o caminhão de coleta passe alternadamente pelas residências para recolher os resíduos orgânicos e o rejeito - outra alternativa é a adaptação do veículo para armazenar os dois tipos de resíduos separadamente. E a equipe de recicladores precisa ser capacitada para fazer o recolhimento dos recicláveis e fazê-los retornar à indústria.
Ao tomar contato com essa nova realidade, muitos gestores vão se perguntar: para fazer isso, não haverá um aumento expressivo dos custos? Vejamos... Qual o custo do passivo ambiental gerado por esta prática ultrapassada de jogar o lixo no buraco? Qual o custo da poluição de nossos rios decorrente da infiltração do chorume? E as consequências desta prática danosa sobre a saúde humana? Já se fala até do câncer que se alastra em função da poluição no mundo moderno.
E o que vamos gastar no futuro para descontaminar o solo nos antigos lixões? E o custo ambiental do gás metano, 20 vezes mais poluente que o CO2? Esta fatura já está chegando até nós e terá que ser paga também por várias das próximas gerações.
Decididamente, não fica caro fazer a coisa certa. Há certamente um custo para a implantação, mas isso deve ser visto como investimento na saúde do planeta e na qualidade de vida de nossas comunidades.
FERNANDO DE BARROS é presidente Conselho Municipal do Meio Ambiente de Londrina (Consemma)

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