ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Paulo Varela Sendin<br>Walmor Macarini 
Vacinação, hipertensão e comunicação
O Ministério da Saúde divulgou um comunicado dizendo que a prevalência da hipertensão está aumentando no Brasil: subiu de 21,5% em 2006 para 24,45 em 2009. Pior ainda para os maiores de 65 anos: esse índice chega a 62,3%. Ao mesmo tempo em que alerta para esse problema, o Ministério exclui os idosos hipertensos da campanha de vacinação contra a Influenza A (H1N1). Pior que a exclusão é a desinformação. Na campanha veiculada pela imprensa, a população é informada que os idosos acima de 60 anos portadores de ''doenças crônicas'' serão vacinados. No entanto, quem procurou os postos de vacinação de Londrina, no sábado pela manhã, a informação era que, para efeitos da campanha, a hipertensão não é considerada doença ''crônica''.
Ao consultar vários médicos, todos concordaram que a hipertensão é doença crônica. Ocorre que o Ministério da Saúde elegeu algumas doenças como ''mais crônicas'' que outras e só permite a vacinação aos portadores dessas doenças ''eleitas'' por algum critério subjetivo e ignorado por toda a população. A lista de doenças crônicas do Ministério é interessante. Algumas são bastante comuns (como asma, por exemplo). E como não é exigida nenhuma comprovação por parte da pessoa a ser vacinada, basta uma ''mentirinha social'' e a atendente aplica a vacina. É o governo incentivando a mentira, ao colocar ante o interessado a opção: ou mente ou não é vacinado. Por outro lado, algumas doenças crônicas, cujos pacientes estão na lista do Ministério como ''vacináveis'', são extremamente raras, algumas com incidência em torno de 30 a 50 casos por milhão (nesse caso, seriam menos de 10 mil pessoas em todo o Brasil).
Tendo em vista o incentivo à mentira, a enorme sobra de vacinas nos outros grupos etários (quase 50% na faixa de 20 a 29 anos), a desinformação da campanha sobre a vacinação e o respeito devido aos idosos, a sugestão ao Ministério e aos executores locais da campanha é que todos sejam vacinados.
PAULO VARELA SENDIN é engenheiro agrônomo em Londrina
Disciplinar falas e sentimentos
Os vícios humanos não são apenas os da bebida, das drogas, da jogatina e das muitas compulsões nocivas para isto e aquilo, mas também os da maledicência e da obcecada predileção por falar da criminalidade e dos males do país e do mundo. São muitos os que recheiam as rodas de conversa com assuntos ligados à violência, marcadamente os casos mais fascinantes divulgados pelo noticiário.
Essa temática consome tempo integral e dedicação exclusiva de muita gente, inclusive no ambiente familiar, envolvendo filhos, pais, avós, amigos. E o pior é que alguns acabam por decretar sentenças e chegam a extremos, como fórmulas de tortura e a pena de morte. E no mais dos casos fazem isso com pesada carga de indignação. Com isso também se contagiam. Outro ingrediente, sobretudo das pessoas idosas, é falar insistentemente de doenças.
As questões da insegurança têm a ver com a realidade que se vive, em todos os pontos do mundo, e as doenças afetam diretamente o corpo e doem na carne, mas quanto mais se toca numa coisa mais ela se robustece. Devemos saber que, no momento em que alguém lê este texto, uma em dez pessoas está cometendo alguma atrocidade, mas as outras nove estão produzindo algo bom, fazendo uma descoberta útil à humanidade, semeando o campo ou colhendo, edificando uma obra, fabricando um produto de uso e consumo ou difundindo boas palavras.
Arrisco declarar que, se por uma semana, ninguém no mundo falasse de coisas ruins, elas diminuiriam de intensidade nesse período. A avalanche de notícias más envenena a atmosfera e atrai mais eventos do gênero. Porque o inconsciente coletivo é um poder forte e com grande força propagadora. Quanto mais se fala de uma coisa, mais ela tende a se repetir, porque o poder da mente é avassalador. Tanto para o mal quanto para o bem. Funciona como uma corrente de incitação. Falas e sentimentos voltados para as maldades criam um campo vibratório trevoso, envolvendo a todos, como se estivéssemos em meio a uma nuvem de gás venenoso. Não podemos ficar indiferentes ao que ocorre, mas sem emanações de ódio e sem o envenenamento da alma, ou então ficamos tão cruéis quanto os bandidos. Melhor é apresentar (e executar) propostas civilizadas de solução.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


