Vacinação, hipertensão e comunicação
O Ministério da Saúde divulgou um comunicado dizendo que a prevalência da hipertensão está aumentando no Brasil: subiu de 21,5% em 2006 para 24,45 em 2009. Pior ainda para os maiores de 65 anos: esse índice chega a 62,3%. Ao mesmo tempo em que alerta para esse problema, o Ministério exclui os idosos hipertensos da campanha de vacinação contra a Influenza A (H1N1). Pior que a exclusão é a desinformação. Na campanha veiculada pela imprensa, a população é informada que os idosos acima de 60 anos portadores de ''doenças crônicas'' serão vacinados. No entanto, quem procurou os postos de vacinação de Londrina, no sábado pela manhã, a informação era que, para efeitos da campanha, a hipertensão não é considerada doença ''crônica''.
Ao consultar vários médicos, todos concordaram que a hipertensão é doença crônica. Ocorre que o Ministério da Saúde elegeu algumas doenças como ''mais crônicas'' que outras e só permite a vacinação aos portadores dessas doenças ''eleitas'' por algum critério subjetivo e ignorado por toda a população. A lista de doenças crônicas do Ministério é interessante. Algumas são bastante comuns (como asma, por exemplo). E como não é exigida nenhuma comprovação por parte da pessoa a ser vacinada, basta uma ''mentirinha social'' e a atendente aplica a vacina. É o governo incentivando a mentira, ao colocar ante o interessado a opção: ou mente ou não é vacinado. Por outro lado, algumas doenças crônicas, cujos pacientes estão na lista do Ministério como ''vacináveis'', são extremamente raras, algumas com incidência em torno de 30 a 50 casos por milhão (nesse caso, seriam menos de 10 mil pessoas em todo o Brasil).
Tendo em vista o incentivo à mentira, a enorme sobra de vacinas nos outros grupos etários (quase 50% na faixa de 20 a 29 anos), a desinformação da campanha sobre a vacinação e o respeito devido aos idosos, a sugestão ao Ministério e aos executores locais da campanha é que todos sejam vacinados.
PAULO VARELA SENDIN é engenheiro agrônomo em Londrina


Dis­ci­pli­nar fa­las e sen­ti­men­tos
  Os ví­cios hu­ma­nos não são ape­nas os da be­bi­da, das dro­gas, da jo­ga­ti­na e das mui­tas com­pul­sões no­ci­vas pa­ra is­to e aqui­lo, mas tam­bém os da ma­le­di­cên­cia e da ob­ce­ca­da pre­di­le­ção por fa­lar da cri­mi­na­li­da­de e dos ma­les do ­país e do mun­do. São mui­tos os que re­cheiam as ro­das de con­ver­sa com as­sun­tos li­ga­dos à vio­lên­cia, mar­ca­da­men­te os ca­sos ­mais fas­ci­nan­tes di­vul­ga­dos pe­lo no­ti­ciá­rio.
  Es­sa te­má­ti­ca con­so­me ‘‘tem­po in­te­gral e de­di­ca­ção ­exclusiva’’ de mui­ta gen­te, in­clu­si­ve no am­bien­te fa­mi­liar, en­vol­ven­do fi­lhos, ­pais, ­avós, ami­gos. E o ­pior é que al­guns aca­bam por de­cre­tar sen­ten­ças e che­gam a ex­tre­mos, co­mo fór­mu­las de tor­tu­ra e a pe­na de mor­te. E no ­mais dos ca­sos fa­zem is­so com pe­sa­da car­ga de in­dig­na­ção. Com is­so tam­bém se con­ta­giam. Ou­tro in­gre­dien­te, so­bre­tu­do das pes­soas ido­sas, é fa­lar in­sis­ten­te­men­te de doen­ças.
  As ques­tões da in­se­gu­ran­ça têm a ver com a rea­li­da­de que se vi­ve, em to­dos os pon­tos do mun­do, e as doen­ças afe­tam di­re­ta­men­te o cor­po e ­doem na car­ne, mas quan­to ­mais se to­ca nu­ma coi­sa ­mais ela se ro­bus­te­ce. De­ve­mos sa­ber que, no mo­men­to em que al­guém lê es­te tex­to, uma em dez pes­soas es­tá co­me­ten­do al­gu­ma atro­ci­da­de, mas as ou­tras no­ve es­tão pro­du­zin­do al­go bom, fa­zen­do uma des­co­ber­ta ­útil à hu­ma­ni­da­de, se­mean­do o cam­po ou co­lhen­do, edi­fi­can­do uma ­obra, fa­bri­can­do um pro­du­to de uso e con­su­mo ou di­fun­din­do ­boas pa­la­vras.
  Ar­ris­co de­cla­rar que, se por uma se­ma­na, nin­guém no mun­do fa­las­se de coi­sas ­ruins, ­elas di­mi­nui­riam de in­ten­si­da­de nes­se pe­río­do. A ava­lan­che de no­tí­cias más en­ve­ne­na a at­mos­fe­ra e ­atrai ­mais even­tos do gê­ne­ro. Por­que o in­cons­cien­te co­le­ti­vo é um po­der for­te e com gran­de for­ça pro­pa­ga­do­ra. Quan­to ­mais se fa­la de uma coi­sa, ­mais ela ten­de a se re­pe­tir, por­que o po­der da men­te é avas­sa­la­dor. Tan­to pa­ra o mal quan­to pa­ra o bem. Fun­cio­na co­mo uma cor­ren­te de in­ci­ta­ção. Fa­las e sen­ti­men­tos vol­ta­dos pa­ra as mal­da­des ­criam um cam­po vi­bra­tó­rio tre­vo­so, en­vol­ven­do a to­dos, co­mo se es­ti­vés­se­mos em ­meio a uma nu­vem de gás ve­ne­no­so. Não po­de­mos fi­car in­di­fe­ren­tes ao que ocor­re, mas sem ema­na­ções de ­ódio e sem o en­ve­ne­na­men­to da al­ma, ou en­tão fi­ca­mos tão ­cruéis quan­to os ban­di­dos. Me­lhor é apre­sen­tar (e exe­cu­tar) pro­pos­tas ci­vi­li­za­das de so­lu­ção.

WAL­MOR MA­CA­RI­NI é jor­na­lis­ta em Lon­dri­na

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