ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Luiz Carlos Ferraz Manini 
A religião serve para explicar tudo aquilo que a ciência ainda não encontrou uma explicação. Essa frase, que me foi dita, talvez não exatamente nesses termos, por um professor durante a graduação, me marcou profundamente. No início do curso de História, ao estudar várias civilizações e seus modos de interpretar o real, passei a acreditar, ainda que timidamente, nesta premissa. Com o passar dos anos, essa talvez (des)crença se ampliou, levado por explicações objetivas e materiais da realidade. Acreditava, como muitos ainda assim pensam, que o homem havia moldado Deus a sua imagem e semelhança.
Anos se passaram, a vida prosseguiu e mudei minhas concepções. Passei a crer que talvez fé e razão não necessariamente precisassem andar em caminhos opostos. E a atual pesquisa do instituto Datafolha nos mostra que essa perspectiva se amplia. Em um estudo efetuado com pessoas acima de 16 anos, das mais variadas rendas e níveis de instrução, demonstrou-se que 59% dos brasileiros acreditam em Deus e em Darwin ao mesmo tempo. Explica-se: essa maioria acredita que o evolucionismo pode ter de fato ocorrido, como se esforçam para demonstrar os biólogos, mas que deve ter sido guiado por uma força superior criadora. Esse resultado aproxima-se de estatísticas europeias sobre o mesmo assunto, o que nos leva a questionar (mais uma vez) o paradigma iluminista presente, de certa forma, em nossa sociedade.
Por paradigma iluminista compreenda-se um determinado modo de pensar, surgido nos anos 1700, que lutava contra a autoridade real absolutista e contra o poder quase ilimitado do clero dentro da sociedade europeia. Pregava-se que a ciência e a razão seriam capazes de fornecer respostas a todos os problemas, e em virtude disto, criou-se um clima de otimismo, de fé na ciência, pois esta levaria ao progresso e à felicidade superior da raça humana. Entretanto, não foi bem assim que se processou.
Encarou-se, no princípio do século XX, o fenômeno da Primeira Guerra Mundial, e sua matança generalizada, com um cenário de guerra total, deixou profundas impressões em todo o planeta. Adveio o segundo conflito, e a descoberta do Holocausto, baseado principalmente na atuação dos campos de concentração, levou alguns pensadores a duvidarem da razão humana, a qual fornecera os meios necessários para tal genocídio. Poderíamos inclusive citar um exemplo mais recente, e pensar como o caso da menina Isabela Nardoni reflete um panorama no qual a ciência, a tecnologia, o avanço material, não proporcionaram maior entendimento entre as pessoas, pois continuamos, em geral, em um estado de selvageria.
Assim, percebe-se que esta presente aproximação, ou ao menos uma tentativa de reconciliação, entre fé e ciência denota um desejo profundo do ser humano, ao menos uma grande parcela da população. Embora seja a tecnologia a responsável pelo avanço material, que garante aos seres humanos um maior conforto dentro deste mundo, o total desconhecimento do destino humano pós-morte faz com que nos voltemos a uma entidade criadora, superiora.
Aliás, como diria Gramsci, a religião, sem discutirmos a existência ou não de Deus, como querem os que não creem, tem um papel fundamental: ela promove a criação de laços de união entre pessoas que, sem esse denominador comum, talvez não pudessem ter mais nada a dividir. Esta aproximação, este elemento de coesão social, cuja finalidade não é outra senão buscar um bem maior, garante um determinado estado que, poderíamos até supor, serve como um mecanismo de harmonia social. Basta deixar-se de lado as incompreensões e a busca por uma verdade absoluta, seja ela em termos de uma religião correta, seja em termos uma verdade comprovável apenas por fatos materiais, tal como querem os ditos cientistas mais resolutos.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina


