Da cozinha para a sala


Marcos Antonio Tordoro


A sociedade está discutindo as causas da criminalidade e as conclusões estão levando à compreensão de que a família tem papel fundamental na prevenção de crimes. A falta de estrutura familiar está como a causa primeira. Há muitas falhas no tratamento das causas. E as consequências estão sendo percebidas pela população da maneira mais difícil: com a invasão da privacidade alheia, com agressividade, com constrangimentos, com a imposição do medo e da intranquilidade. Tudo é carreado para a conta do Estado (União, Estados e municípios). E o Estado tem sua responsabilidade e não deve se eximir.
As políticas públicas devem ser implantadas, as ações comunitárias devem ser lideradas pelas autoridades públicas e tudo isso é discutido em reuniões e em debates com a comunidade, ocasiões em que todos falam com as mesmas palavras, com a mesma intensidade, os discursos são redundantes e insistentes na ação interventiva nas causas. Todavia não se constata a efetiva aplicação e atuação de pessoas na execução das políticas públicas elementares, de forma a mudar as realidades das grandes, médias e pequenas cidades do Paraná e do País.
O que se defende é uma atuação pontual nos lares das periferias das cidades, naqueles lugares pobres, com o impacto da ação forte e legítima dos governos, sem subterfúgios ou economia de recursos, uma vez que vidas precisam ser salvas. Existem pessoas que não conseguem buscar ajuda. Tem que ser uma ação da cozinha para dentro, interna, impactante e que abrace as famílias (pais e filhos), sem desculpas de que é perigoso, sem preconceitos, sem vaidades. É um propósito que não pode depender de formalismos, mas apenas da vontade de um governo, de todo governo e dos cidadãos de bem e de coragem.
As boas intenções estão nos projetos, nos relatórios, nas atas, nas reuniões desse e daquele conselho, mas a mãe e o pai de um jovem drogado precisam da ação auxiliadora e de ajuda, por isso mais que intenção é necessário pé na estrada e mão no trinco das portas, entrando pela cozinha e sentando na sala da casa do adolescente bandido.
MARCOS ANTONIO TORDORO é 1º tenente e comandante da 1 Companhia de Polícia Militar de Rolândia





O direito de sentar-se


Walmor Macarini


Minha amiga, 45 anos, acaba de pedir demissão da loja onde trabalhava como vendedora, pois não aguentava ficar de pé 6 horas contínuas. Porque não havia cadeira para um leve descanso que poderia servir nos momentos de ausência de fregueses. No geral, nos estabelecimentos comerciais, não existem bancos para os serviçais e nem para os fregueses. Mesmo uma loja pequena comporta ao menos um. Sei de muitos atendentes que sofrem de dores nas pernas e na coluna, mas suportam para manter o emprego. Embora não intencional, o sistema é perverso.
Também nos grandes magazines e nos supermercados deveriam ser reservados pontos para colocação de bancos, destinados aos empregados e à clientela. Não só nos corredores, mas no recinto de compras. Sentar-se por alguns minutos é questão de bem-estar, e deve-se proporcionar também essa regalia ao comprador. Algumas lojas têm cadeiras ou banquetas, mas são raras. Bancos para rápido descanso, servindo a todos pelo revezamento, manteriam os fregueses mais tempo dentro da loja, com possibilidade de comprarem mais. Todo negócio existe para se ganhar dinheiro, mas também para satisfação do cliente. Um grande mercado da cidade chegou a ter alguns bancos, na área de compras - e as pessoas os usavam bastante -, mas depois os retirou. No caso dos atendentes, eles obviamente não irão ficar sentados o tempo todo.
Imagino também o cansaço dos seguranças, e penso que, podendo sentar-se por momentos, eles agiriam com mais vigor quando preciso. Regimes duros são às vezes mais um desnecessário martírio do que eficiência. E é preciso repensar o mesmo com os trabalhadores das fábricas e de outros serviços pesados. Deveria haver uma lei obrigando a adoção de equipamentos de mais conforto nos ambientes de trabalho, para fregueses e empregados. Assunto para autoridades, sindicatos e atendentes de recursos humanos. Há que considerar também o caso de idosos, igualmente compradores e que se sentiriam mais confortáveis e respeitados se encontrassem lugar onde sentar-se. Quando se dá algo a mais, qualquer negócio tende a prosperar. Quem conhece essa mágica a pratica. Todo movimento, quando bom, gera uma reação positiva no mesmo sentido.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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