Como cientista social há muito tenho concentrado meus interesses sobre as formas de pensamento autoritário, bem como sobre as ações delas derivadas. Em dias recentes, ao acompanhar o noticiário local, deparei-me com um desses curiosos casos em que os excessos de virtude lembram de perto a velha toada dos reis absolutistas, a de que o direito de reger não significa reger direito. Dias atrás, uma servidora do município, no zelo de guardar carro oficial, acabou por destemperar-se ao constatar que estava bloqueada a via de acesso que a levaria a concluir sua intenção. Em sua movimentação cívica, acabou bloqueando a via pública, no que foi interpelada pela Polícia Militar. O episódio ganhou relevo na imprensa e, a meu ver, alguns de seus ângulos talvez possam ser vinculados a certos sentimentos muito antigos, mas que ainda estão gravados em nossos costumes.
Nesse ponto, lembro o historiador Sérgio Buarque de Holanda, que registrou algumas reflexões relevantes acerca do apurado senso nacional de fidalguia. Com efeito, diz o autor de ''Raízes do Brasil'', herdamos de Portugal - terra em que todos se sentem igualmente fidalgos - esse sentido aristocrático da vida.
E por falar em espírito de muita nobreza, nada é mais expressivo quanto a esse ideal do que o fidalguíssimo personagem celebrizado por Eça de Queiroz em ''A Ilustre Casa de Ramires''. Com efeito, Gonçalo Mendes Ramires, dotado dos sangues superiores de varões pré-afonsinos, pretendeu fazer renascer toda a glória da fidalguia portuguesa há muito desgastada pelo poder do dinheiro, que enfraquecera os valores da nobreza.
Inflado de nobreza, em certa ocasião o Gonçalo de Eça quis saber de seus amigos com que autoridade o rei de Portugal desejava fazê-lo marquês de Treixedo. Quando lhe responderam que com a autoridade própria do rei de Portugal, o fidalgo não se conteve. Sua resposta foi da seguinte ordem: ''Ainda não havia reis de Portugal, nem sequer Portugal, e já meus avós tinham solar em Treixedo! Eu aprovo os grandes dons entre os grandes fidalgos; mas cumpre aos mais antigos começarem. El-Rei tem uma quinta ao pé de Beja, creio eu, o Roncão. Pois diz tu a el-Rei, que eu tenho imenso gosto em o fazer, a ele, marquês de Roncão''. Como deixa implícito o próprio Eça, toda essa aguçada fidalguia é uma metáfora de Portugal, o país por excelência das glórias passadas.
No Brasil, país cujas excelências ainda estão concentradas no futuro, uma técnica muito utilizada pelos nostálgicos do espírito fidalgo é a de embaralhar o espaço público com as dimensões da vida privada. Ao bloquear a via pública, a servidora municipal em foco teria se exaltado com o policial, quando este lhe cobrou providências. Ela saiu-se no tom do ''você sabe com quem está falando'', etc. O policial deu-lhe voz de prisão, o caso foi parar na delegacia, e à justiça caberá a definição das responsabilidades.
Emblemática no episódio é a tentativa de burla da ordem republicana, curiosamente pelo emprego das próprias insígnias da lei e da autoridade. Se tais exorbitâncias fidalgas fossem um caso isolado, talvez pudéssemos respirar mais tranquilos e pensar que a obra civilizadora das antigas pulsões aristocráticas já tenha sido concluída nestas latitudes. Mas temo lembrar que exemplos como o da ''amiga do prefeito'' são muito mais corriqueiros do que se possa imaginar. Na verdade, atitudes como essas estão tão arraigadas em nossa vida diária como se fossem, por assim dizer, um dado da natureza. Nessas alturas, talvez caiba a constatação: vai faltar polícia no dia da revolta geral dos cidadãos contra a nobreza.
MARCOS ANTÔNIO LOPES é historiador, pesquisador do CNPq e professor na Universidade Estadual de Londrina

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