Desde 1960 estamos nos debatendo com a revolução sexual. A esperança dessa revolução era a conquista da liberdade, a sociedade dos desejos e a realização afetivo-sexual. Os enfoques dessa mudança foram evoluindo: cinema, dança, anticoncepcionais, beijo na boca em público, desmistificação da masturbação, combate à virgindade e castidade, sexo em grupo, música erótica de todo tipo, relação sexual antes do casamento, mudança de sexo por cirurgia, sexo explícito nos cinemas, nos vídeos, limitação cerrada da natalidade, facilitação do adultério, legalização do divórcio e do aborto, da prostituição, sexo oral, sexo anal, pornografia em revistas e internet, exasperação pelo orgasmo, valorização da magreza e das posições físicas na relação sexual, transa com o namorado na casa dos pais, aceitação do homossexualismo, etc.
Estas mudanças foram rápidas. Entramos numa balbúrdia sexual e erotização da vida. Em nossos dias o turismo sexual, o tráfico de mulheres, o sexo virtual na internet, a ''pulseira do sexo'' e a exploração sexual da criança são sinais de que a revolução sexual não trouxe a realização, a felicidade, a liberdade, a paz e saciedade que pretendia alcançar. A erotização está cada vez mais agressiva, facilitando a decadência e, ao mesmo tempo, trazendo novos problemas como a Aids, as novas doenças sexuais, pedofilia, a legalização da união entre pessoas do mesmo sexo, a imposição da permissividade por meio de novelas, programas televisivos tipo Big Brother, facilitação erótica via celular, internet, enfim, via tecnologia.
Curiosamente, neste mesmo contexto, as escolas públicas chamaram atenção para a necessidade de limites e de valores morais no campo do sexo. Mais recentemente, movimentos eclesiais estão atraindo jovens exatamente pela proposta da castidade como, por exemplo, a Renovação Carismática, a Canção Nova, as Novas Comunidades, os Centros de Recuperação de Viciados em drogas, a Opus Dei, os Arautos do Evangelho e outros. Há um desejo e uma procura pela castidade.
Parece que o erotismo em vez de levar à felicidade acabou em fomentar o tédio, a desilusão, o vazio. Estamos hoje vivendo entre um forte erotismo e uma forte procura de castidade. Não conseguimos lidar bem com os sentimentos, as paixões, a sexualidade. Faltou e falta a educação para o amor. Estamos pagando muito caro por esta omissão. Humanizar e evangelizar a sexualidade é ainda um grande desafio. Esperamos que a volta à castidade não propague um novo moralismo ou conservadorismo. O discernimento se faz necessário, como também, a educação sexual na família, a preparação para o casamento, a busca da cura das feridas e das emoções e a positividade do sexo. Não tenhamos vergonha de falar o que Deus não teve vergonha de criar.
Chegar à maturidade sexual não é algo fácil, mas é possível. Nem tabu, nem revolução, mas simpatia sexual é o que precisamos. Não banalizar e não dramatizar o sexo, não absolutizar o prazer, mas, aprender a amar, eis o desafio. Experiência de boas amizades, experiência do amor de Deus, experiência de grandes ideais são possibilidades de sublimação e de realização humano-afetiva. Não morremos por falta de sexo, mas, por falta de amor e de afeto.
A reconciliação com a sexualidade é necessária, pois, todos viemos de uma célula sexual. A procura de solução de nossas deficiências sexuais e afetivas nos ajuda a crescer e a encontrar os outros e a Deus. O sexo é fascinante, mas, o fascínio maior é o amor de Deus. A renúncia não faz mal quando bem conduzida porque é caminho de libertação. Com tanta revolução sexual estamos nos sentindo cada vez mais escravos dos vícios das paixões, das doenças sexuais.
Oxalá se apresse o dia do encontro das pessoas com Jesus Cristo. Este encontro mudou o erotismo de Francisco de Assis, de Camilo de Lellis, de Agostinho de Hipona, de Maria Madalena, da Samaritana e de tantos outros homens e mulheres. Estas pessoas nos atestam que nossa fome de sexo é, no fundo, fome de Deus de um amor verdadeiro, fiel, duradouro. Amar e ser amado é a nossa mais profunda vocação.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

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