A adolescência corresponde a um tempo de descobertas, inquietações e estimulações que reacende o despertar da sexualidade e as pesquisas sexuais da primeira infância a partir de dois principais movimentos que se impõem: as transformações corporais e as transformações psíquicas.
O adolescente se difere da criança quando um imperativo de satisfação expresso pelo organismo se revela a partir dos órgãos genitais. Desde então é convocado a dar significação ao seu corpo, atualizando as escolhas infantis e se posicionando em relação ao seu desejo.
Podemos concluir que este ''despertar da primavera'' não traz em si a sutileza de um amanhecer ou a terna segurança de que o aparelho biológico dará conta de respostas tão particulares. O encontro com a excitação genital é também causa de mal-estar na medida em que o sujeito tem de deixar a infância e se incumbir de representar o seu próprio desejo. É de forma singular que cada sujeito dará uma resposta ao seu faltar e à forma de seu existir, elaborando um universo psíquico amarrado àquilo que se expressa na imagem de seu corpo biológico. Neste experimentar, muitos adolescentes encerram destinos fatais no abuso de drogas, na anorexia, no acidente de automóvel, na crise de angústia, no suicídio, na prostituição.
Na puberdade a configuração do arranjo familiar se abre a outras relações do sujeito com o ambiente coletivo, de forma que a infância é abandonada com o suor de um árduo e doloroso trabalho psíquico: o desligamento da autoridade dos pais.
Tão revelado pelas contradições entre diferentes gerações, o conflito deste desligamento é a própria mola que move a cultura. Pode-se ilustrar um quadro onde um filho começa a sustentar suas opiniões e encontra no pai uma resistência a este movimento promovida pelo temor de o filho não reproduzir a mesma visão de mundo, as intenções e a moral que encontrou em casa. Existe uma verdade no desejo do filho da mesma forma que também existe no pai! Não há certo nem errado; existe sim uma diferença e a falta de uma verdade absoluta.
Se existe na maturação do sujeito um tempo de contradição da posição paterna que aponta ao desligamento de sua autoridade absoluta; de que modo o adolescente encara, por exemplo, a proibição das ''pulseiras do sexo'', tão noticiadas recentemente? A vulnerabilidade ao ato e à violência sexual, ou qualquer outra conotação que estas venham ter, circunscreve algo muito diferente dos apertados jeans, do umbiguinho à mostra e salientado pelo piercing ou dos enchimentos nos soutiens adolescentes tão complacentemente aceitado pela maioria dos pais? Afinal, o que pensa cada adolescente quando usa um ou outro desses adereços?
Sublinhando as diferenças, talvez não encontremos uma conduta linear ou uma pedagogia que consiga encerrar no humano um contorno tão pontual e particular que consiga regular o que há de mais primitivo. Entretanto, é impossível que a sociedade em geral, a família e a escola não se angustie e não tente dar uma resposta em prol de uma moral e de bons costumes; ainda que esta apenas ''sirva de lição'' sem que tenha qualquer alcance verdadeiramente relevante.
A propósito, nem família, nem escola ou sociedade têm ofertado espaços onde a sexualidade possa ser falada quando já se poderia, por exemplo, integrar o tema no projeto político pedagógico das escolas. De qualquer modo, se hoje vemos a sexualidade mais banalizada e vulgarizada que antes, este é um movimento onde o adolescente é mais um efeito que uma causa: efeito do pensar adulto, efeito da mídia, efeito de cultura.
É prudente que o adolescente não seja excomungado e ignorado em seu pensar, e que o hiato existente entre o que ele pensa e o que dele se espera seja levado em consideração. Para além da tutela, é razoável uma intervenção com autoridade e sem autoritarismo, onde haja segurança, tolerância e amizade; onde a verdade absoluta não ameaça a presença de uma genuína pergunta, única possibilidade de se enfrentar os grandes desafios do por vir.
JOSÉ MAURICIO BIGATI é mestre em Pesquisa e Clínica Psicanalítica pela UERJ e psicólogo em Londrina

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