ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de abril de 2010
José Rafael Solano Durán 
Nos últimos dias vimos e ouvimos com suficiente cobertura os escândalos que abalam a Igreja Católica. Sabemos que de um lado e de outro a situação que vive o mundo hipersexualizado atinge a todos nós clérigos e não clérigos, mas afirmar que os estragos dos abusos sexuais, da pedofilia e de outras situações pares tenham a ver com o celibato me parece algo ridículo e irresponsável de afirmar.
Três grandes jornais do mundo ''Le Monde'', ''New York Times'' e ''Folha de S.Paulo'' publicaram artigo escrito pelo assim conhecido ''teólogo dissidente'' Hans Kung no qual este condena o celibato da Igreja Católica, indicando que é o direto e o único responsável das patologias sexuais vividas pelos sacerdotes católicos.
Para Kung, o celibato não é mais do que uma prática obsoleta e fora de ordem e, por isso, mesmo aqueles que almejam o sacerdócio se escondem atrás de uma atitude masoquista de repressão e nulidade frente à prática sexual desejada. Infelizmente, na ''Folha de S. Paulo'' não saiu a íntegra do artigo, mas tive a oportunidade de lê-lo inteiro no ''Le Monde'' e constatei mais uma vez o que antigos mestres me ensinaram: ''Escrever com sangue dói, mas escrever para derramar sangue é cinismo''. Precisamente a isto quero me referir. O celibato não é nem obsoleto, nem aberração, muito menos repressão. O celibato é um dom da graça que é dada a todos e todas que o pedirem.
O celibatário descobre como pode amar com um coração livre a Deus e aos seus irmãos. A grandeza do dom não faz com que esqueçamos o valor da resposta e da história pessoal de cada um e de cada uma que assume no celibato um estilo próprio de vida. Ao assumir o celibato o homem ou a mulher descobre nele a esperança de bens que são superiores a todos aqueles que o prazer humano pode apresentar. Precisamente por isso para vivê-lo o processo vocacional oferece ferramentas que o ajudem a descobrir o valor deste dom da graça.
A primeira de todas elas não é nada mais nem nada menos do que a descoberta de um coração de carne. É isso que nos pedimos a Deus quando lhe suplicamos que nos conceda a graça de sermos celibatários. Ser celibatário não é ser insensível como alguns pensam; pelo contrário, os celibatários devem ser cada vez mais sensíveis a uma experiência de amor que os liberte das simples necessidades. Em segundo lugar existe um itinerário que deve ser percorrido prudente e alegremente. O celibatário não queima etapas afetivas ou simplesmente se isola para não partilhar com os outros a beleza do amor.
O celibatário está inscrito dentro de um espaço chamado vida, e deve viver dia após dia o valor da sua entrega na intimidade com Aquele a quem tem consagrado sua sexualidade: Deus. Em terceiro lugar o celibato será vivido plenamente na medida em que algumas - se não muitas barreiras - sejam superadas e hoje mais do que nunca a incompreensão e banalização do mesmo. Viver o celibato não é mais do que acreditar que o Reino de Deus pode acontecer mesmo aqui, no meio de nós limitados e contingentes. Viver o celibato significa superar os critérios sociais onde o específico pode estar regido pela prática sexual desenfreada. Viver o celibato significa deixar de lado uma filosofia pansexualista e assumir uma experiência evangélica.
Não duvido que todos aqueles que tenham sofrido abuso por parte dos clérigos não tenham direito a restabelecer sua dignidade, mas também considero que o método que está sendo utilizado para esta cura interior não está sendo nem o mais humano nem o mais restaurador.
Hoje com dor, me pergunto se ao me aproximar de uma criança, de um adulto ou de um adolescente devo necessariamente guardar quilômetros de distância. Com a mesma dor constato que a nossa sociedade epidermicamente doente não suporta que o bem seja instaurado e que possamos continuar acreditando que ser celibatário pelo Reino dos Céus é uma graça que Deus suscita naqueles que Ele quer.
JOSÉ RAFAEL SOLANO DURÁN é doutor em Teologia Moral e sacerdote da Arquidiocese de Londrina


