O passado torna-se o tribunal do certo e do errado, daquilo que funcionava e da gênese de todos os problemas atuais

Em alguns meios políticos brasileiros cada vez mais está em evidência uma artimanha cuja função é jogar ''a sujeira'' para debaixo do tapete. Um recurso que pode ser utilizado por aqueles que ocupam, pelo menos no Brasil, um cargo político: culpar a gestão anterior! É o show das desculpas e culpas passadas para o passado. Buracos nas vias públicas? Falta de médicos nos hospitais e postos de saúde? Creches em greve? Déficit no orçamento? Ora, são evidentes as respostas: tudo isto foi causado pelas administrações anteriores. E no plural, pois a culpa deve recair sobre mais de um gestor público para impedir que retratações e possíveis engasgos políticos criem um mal-estar no futuro.
Mas o contrário também é válido, principalmente quando é o povo que diz: ''Lembra daquele prefeito? Esse sim que sabia dar conta da prefeitura''; ''E o governador anterior? Respeitava o povo''; ''O presidente na minha mocidade, levava o país adiante''.
O passado torna-se o tribunal do certo e do errado, daquilo que funcionava e da gênese de todos os problemas atuais. Entretanto, essa volta ao passado pela população é compreensível pela insatisfação constante e cotidiana que sente. As águas que rolaram debaixo da ponte, infelizmente, para alguns não voltam mais. Porém, o que incomoda é esta atitude por parte de políticos.
É certo que não podemos desconsiderar as administrações anteriores. Tal como uma bola de neve, os problemas não resolvidos são somados e descem montanha abaixo. Mas o que pode surpreender é pensar que os atuais governantes assumiram seus cargos com uma incrível inocência dos problemas herdados. Procuram passar a imagem de que a grande maioria não tivesse uma vida política profissional anterior e querem que acreditemos que caíram de paraquedas no trono do Executivo. Que durante toda a campanha e os incontáveis projetos de governo, não tivessem a menor noção daquilo que poderia ou não ser feito. Sempre com a mesma ladainha, ''recursos que viriam de uma ou outra fonte jorrariam nos cofres do Executivo''.
Fantasias? Não, as velhas falsas promessas maquiadas em forma de ''projetos mirabolantes'', proferidas por um rosto sorridente que, num momento de sufoco, não sabe assumir seus erros, sua palavra dada. Fazer isso seria comprometer seu futuro político, seja para a reeleição ou outro cargo - desde que se mantenha na ''profissão''. Usam do argumento mais fácil, jogar o peso nos ombros do passado, de seu antecessor que não será cobrado, que provavelmente não lhe causará problemas, que já fechou a conta de seu governo.
O que esta artimanha esconde é a incompetência, a dissimulação e o jogo de empurra-empurra que permite aos administradores que se enquadram neste perfil realizarem pouca ou coisa alguma. Sempre na tentativa de postergarem para o fim do mandato a execução de projetos de campanha, quando inauguram todas as obras possíveis e até mesmo aquelas que ainda se encontram no campo da imaginação.
Numa tacada só, certos políticos brasileiros fazem uma complexa junção temporal: trazem um passado no qual põem a culpa, um presente que esconde a incompetência e, por fim, o futuro das reeleições somado a novos projetos mirabolantes. Dizem que poucos dos que estão aí se salvam. Não sei, estou para ver um político que assuma as responsabilidades do cargo que ocupa. Nova fantasia? Teremos eleições este ano, fica o aviso.
ROGER COLACIOS é historiador em Londrina e doutorando em História Social pela Universidade de São Paulo

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