O status atual (livre de aftosa com vacinação) é uma mancha que encontramos ao disputarmos mercados que nos impõem restrições na competição


A Associação Nacional dos Produtores de Bovinos de Corte (ANPBC) em reunião do Conselho de Sanidade (Conesa), em 8 de março de 2010, votou favoravelmente ao início do processo de erradicação da aftosa no Paraná. Ou seja, somos 100% favorável a conquistar o status livre de aftosa sem vacinação. Porém, nosso voto foi acompanhado de condição que se tenha prazo para que os pecuaristas e demais elos da cadeia estejam informados e preparados para tão importante decisão.
Consideramos que a obtenção deste status é uma política de Estado e não apenas uma política de governo, e que os pecuaristas, por cumprirem com responsabilidade as vacinações em cada época das campanhas ao longo dos últimos 15 anos, construíram um patrimônio com valores expressivos para o nosso Estado e País. Com esta atitude, somada à orientação e fiscalização da Seab em todo o processo que regulamenta a prevenção desta doença, o Estado atingiu os índices que motivaram as autoridades a pleitearem o status de livre de aftosa sem vacinação.
O status atual (livre de aftosa com vacinação) nos proporciona a condição de ofertar carne saudável e segura aos consumidores. Porém, é uma mancha que encontramos ao disputarmos mercados que nos impõem restrições na competição, com mercados também produtores e consumidores, assim como junto a mercados consumidores que, por conveniência de barganha, utilizam esta mancha para impedir nossa participação. Portanto, o status atual não atende o desejo do nível tecnológico e competência que tem o pecuarista.
Podemos ampliar o plantel do Estado mesmo não tendo mais áreas de terras disponíveis. Utilizando tecnologias desenvolvidas por entidades de pesquisa (integração lavoura-pecuária, por exemplo), essa alternativa é perfeitamente factível, e com resultados de muitos benefícios: produção com qualidade ainda superior, retorno do investimento, sobrevivência da atividade e geração de mais divisas e empregos no Estado.
O Paraná não é uma ilha autossuficiente quando se trata de produção, processamento, comercialização e consumo de carne bovina. Estamos inseridos num mercado com cadeia extremamente sensível à flutuação dos preços tanto para o produtor como para o consumidor. Se não houver um entendimento prévio envolvendo a cadeia produtiva, a decisão de suspender a campanha de vacinação deixará estes dois elos em alta exposição.
Ao condicionar o prazo para a suspensão da vacina contra febre aftosa, a ANPBC chama para a reflexão o momento político que teremos ao longo de 2010 e clama pela memória do que ocorreu em outubro de 2005, quando o atropelo da tomada de decisão inseriu Estado e pecuaristas em uma constatação de casos de febre aftosa que jamais existiu. Temos um processo extremamente complexo a perseguir, conhecer, adotar, implantar e manter junto a todos os participantes da cadeia, públicos e privados, que devem estar informados e conscientes do compromisso de cada um para obter os benefícios desta conquista.
Os compromissos do Paraná, que constam na aplicação da Instrução Normativa MAPA 44 (2/10/07), deixa a entender o envolvimento do trabalho conjunto de várias secretarias (monitoramento e fiscalização nos diversos meios de movimentação de animais no Estado e fronteiras, e quantidade de técnicos e profissionais com estrutura disponível 24 horas para policiamento nos postos existentes e nos ainda necessários) e indica que nosso condicionamento é oportuno e responsável. O patrimônio construído pelos pecuaristas ao longo dos anos não poderá ficar à mercê de medidas motivadas por interesses políticos, principalmente em momento de transição de governos estadual e federal, já que o atropelo dos fatos poderá repetir o desastre de 2005.
A ANPBC propõe amplo debate entre as entidades de governo, pecuaristas, frigoríficos, distribuição, varejo, pesquisa e extensão rural e consumidores para que todos tenham o mesmo nível de conhecimento, compromisso, deveres e obrigações para a decisão da data de suspensão da campanha de vacinação. As conclusões construirão as bases para a decisão de iniciar o processo, atingir o objetivo e consolidar condições para manter o Paraná no status livre de aftosa sem vacinação, que é o desejo de todos os pecuaristas.
JOSÉ ANTONIO FONTES é presidente da Associação Nacional de Produtores de Bovinos de Corte (ANPBC)

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